A dúvida de Lupita: a mulher com “pele de cadeia” que ergueu a estátua de ouro

Por Fernanda Bassani¹

lupitaLupita Nyong’o acaba de ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Uma gota reverbera diferente no mar do entretenimento mundial. Lupita é queniana e “muito negra”. Sua presença no red carpet tingiu de um negro lustroso e selvagem, um cenário acostumado aos opacos tons nude dos figurinos – que só são considerados nudes porque as peles que os recebem são claras – e aos coloridos azuis e verdes dos olhos das estrelas de Hollywood. Lupita não é colorida, é monocromática. De um negro tão intenso que foi considerado inadequado, a ponto de revistas de moda lançarem mão de recursos tecnólogicos para tentar suavizá-lo . Considerada bela pelos comentaristas – que se apressam em incluir o adjetivo “exótica” ainda na mesma frase – o negro de Lupita transgride os padrões dominantes de Hollywod e, assim, obriga a platéia mundial ao convívio com o diferente. Seu diferencial, no entanto, não está em ser negra – há milhares de atrizes negras no mundo. A ruptura está no lugar. Apesar de ser “excessivamente negra”, Lupita fez a travessia e estabeleceu assento no lado dos vencedores. Ainda é uma coadjuvante, mas é a melhor delas. Assim como Whoppy Goldberg e Halle Berry, entre outras poucas atrizes negras reconhecidas, ergueu cintilante o símbolo do sucesso no mundo das artes. Mostrou-se, portanto, “ A melhor” de uma industria que fascina os olhos de milhões de pessoas, ditando padrões de beleza, poder, certo, errado, bondade, maldade, etc. Valores que entre uma pipoca e outra, invadem e constituem a subjetividade da população mundial. Por todo o poder que o mundo do entretenimento americano exerce é provável que essa vitória ajude a aproximar o negro a conceitos de beleza e talento, e, quiçá, avizinhá-lo a objetos de respeito e admiração. Em frente à tela do computador, vendo as reverências que a grande mídia fará para a atriz “muito negra”, o hominnus-conectadus da contemporaneidade poderá ter sua retina enegrecida, sem nem perceber, como, aliás, sempre funcionaram os grandes dispositivos capitalistas de produção de sentidos: potencializam alguns símbolos com aureolas de prazer/status e os diluem no cotidiano, nos momentos de lazer do povo – filmes, novelas, esportes – quando as defesas baixam e só o que se quer é um pouco de glamour para esquecer o sofrimento diário. Vitória negra que vem em boa hora. Sobretudo no Brasil, onde nos últimos tempos o negro tem sido cada vez mais midiatizado como exemplo de violência, vadiagem, animalidade, perigosidade, enfim, adjetivos que circundam o mundo da miséria humana e social, e que de acordo com os meios de comunicação de massa e com os “moralistas dos sofás” tornam-se uma causa em si. Na escala subjetiva do nosso país, quanto mais escuro, mais violento…mistérios da natureza, em uma sociedade democrática de um povo extremamente cordial e receptivo, não é mesmo? Para mim que trabalho no campo da segurança pública, essa vitória negra nas telas é vista como um alento. Também os trabalhadores da segurança pública utilizam as telas em seus momentos de descanso. Em tempos modernos, tem usado-as também como recursos de trabalho: o videomonitoramento de áreas estratégicas das grandes cidades disseminam-se, dando forma aquilo que Deleuze (1992) nomeou como “sociedades de controle”. Essas seriam sociedades constituídas por uma mutação recente do capitalismo, que tem no marketing e nas conexões globalizadas aquilo que faz o mercado girar. Nessa “modernidade liquida” (Bauman, 2001), em que os pilares sólidos das instituições se desfazem, é muito mais pelo monitoramento dos fluxos – intensos e hiper-conectados – do que pela disciplina dos corpos que se faz segurança pública. Modernizam-se as ferramentas de trabalho, mas não o olhar. Este permanece com os valores de sociedades antigas, em que o negro era vista como o principal suspeito, o bandido provável. Digo isso, não com base em teorias esquerdistas inconformadas, mas pelas experiências práticas de convívio com equipes de segurança, que são em última instância, formadas por homens que efetivam a escala de valores da sociedade, incorporada nos mecanismos de governo do Estado. A vitória de Lupita nas telas me fez relembrar uma experiência que tive a um tempo atrás em uma estação de vídeomonitoramento da Policia Militar de uma cidade do centro do país. O hiper-negro positivado de Lupita, relembrou o negro negativado e tatuado como filtro no olhar do policial que acompanhava as telas de controle. Na ocasião, um policial me acompanhava, dissertando sobre a tecnologia moderna que parecia romper com a burocracia estatal e as ausências policiais nos momentos em que o cidadão mais precisava. Entusiasmada, questionava sobre os “protocolos integrados”, “busca ativa”, e outros termos desconhecidos até então. Envaidecido com meu encantamento, o policial resolveu me mostrar uma situação de crime, ocorrida na noite anterior. Tratava-se de um furto. O policial de plantão assistia a cena pela tela, e pelos movimentos, pode prever o furto – que de fato ocorreu – mas teve tempo hábil para enviar uma viatura ao local. Assim efetivou-se a prisão do criminoso e a restituição da bolsa a vitima. Escutando os relatos, minhas expressões se animavam, estimulando meu gentil cicerone a estender a conversa. Foi então que começou a falar em “expertise policial” SIC que é, segundo ele, a habilidade que o profissional de segurança pública tem em reconhecer suspeitos. Disse que no setor havia mais de 2.000 fotos de criminosos e que os policiais ficavam diariamente repassando-as, fato que os levava a gravar no “sub-consciente” SIC estes rostos. Isso ajudava nas abordagens, pois de dentro da sala de videomonitoramento o policial poderia sugerir ao colega na rua que abordasse um suspeito. E foi então que chegamos no momento mágico, aquele que se Steve McQueen, o diretor de “12 anos de Escravidão” estivesse comigo, certamente teríamos aí uma grande promessa de roteiro. A fala foi: “E também doutora tem um elemento que nos faz reconhecer prováveis criminosos que é a pigmentação da pele” SIC. Eu arregalei os olhos, mas procurei me conter. Fui tão eficiente que ele seguiu a fala, com seu raciocínio fantástico. “É que a maior parte deles vem da cadeia, já cumpriu pena e na prisão eles tomam banho de sol sempre no mesmo horário. Todo dia, mesma quantidade de sol. Isso faz com que eles acabem ficando todos com a mesma pigmentação na pele. Que é a cor de cadeia” SIC. Confesso que fiquei impressionada com o potencial filosófico e político da fala do policial, homem simples e efetivamente dedicado em proteger a sociedade. Havia até um que de poético nessa fala, uma profecia social que se realizava: se você tem “pele de cadeia” é na cadeia que você deve estar. E o policial ajudando no desfecho correto, no único possível, de um roteiro urbano moderno: a proteção do bem (“cidadãos de bem”, representados pelos nudes de Hollywood) pela contenção do mal, que tem uma pigmentação própria, que o denuncia. Os diversos tons de negro. Foi então que pensei, mas e se, por uma ironia da natureza, alguém tivesse uma pigmentação de pele muito parecida com a de “um bandido de cadeia”, uma pele escura, tostada, cinza, meio “suja”, mas nem assim, tivesse cometido delitos, como fica? Ora bolas, pergunta tola, iria para o seu reino do mesmo jeito, pensei eu. Afinal este é o seu lugar. Foi assim com o protagonista do filme “12 anos de Escravidão”, negro livre que foi seqüestrado e restituído aos campos de escravidão do século XIX e assim poderá ser em 2014. É por tudo isso que ao subir os degraus do Teatro Kodak em Los Angeles, Lupita instaura uma dúvida imponente. Mostra nas “telas do vídeo-monitoramento mundial” uma pessoa com “pele de cadeia” segurando uma estatua de ouro. O ouro não foi roubado. Como ela conseguiu transgredir o cenário sem usar de violência? Ao longo dos anos, que efeitos essa e muitas outras transgressões negras pelo talento produzirão sobre a subjetividade daqueles que assistem ao espetáculo? E aqueles que devem garantir que o espetáculo aconteça com segurança, serão capazes de incorporar essas mudanças de posição das cores, desconstruindo antigos conceitos de suspeição? Viva a dúvida de Lupita!

Referências Bibliográficas Bauman, Zygmunt. MODERNIDADE LÍQUIDA. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 2001. Deleuze, Giles. POST-SCRIPTUM SOBRE AS SOCIEDADES DE CONTROLE (in CONVERSAÇÕES). Rio de Janeiro: Ed 34, 1992.

¹- Fernanda Bassani é psicóloga do sistema penitenciário do RS, Mestre em Psicologia Social pela UFRGS ( febassani@hotmail.com)

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