08 de março – Um poema de luta!

POR QUE EXISTE O DIA DA MULHER??
Ainda que o prazer me seja negado
Que na África meu clitóris seja cortado
a sangue-frio
para extirpar definitivamente
o mal que trago em mim.
Que em outros orientes me cubram de negro
e me concedam apenas o vão que deixa
o mínimo ar da vida entrar.Ainda que meu corpo pecador
seja molestado desde a puberdade.
Que no norte do Brasil eu seja leiloada
para o prazer dos coronéis.
Que meu corpo seja exibido
como suculento presunto.
Que eu faça sexo pelos cantos
para poder comer.
Que a baba do desejo dos homens
escorra do canto de suas bocas
para meus seios.
Que o passeio no meu corpo
seja o turismo do estrangeiro
que vem ao Brasil.

Ainda que meu canto de tristeza
não seja ouvido.
Que meu homossexualismo
seja pecaminoso e perseguido.
Que a canção do meu amor
tenha que ser sussurrada para minha amada.
Que eu seja surrada até a morte por amá-la.

Ainda que meu corpo não seja meu.
Que me mandem ter filhos
que não quero ter.
Que me neguem o aborto
e me mantenham a bordo
dessa nau de loucos.

Ainda que me concedam
o status de consumidora.
Que me paguem menos que aos homens.
Que eu dê minhas forças ao marido
explorado quando ele volta ao lar.
Que meu marido mui generosamente
me transmita a Aids.

Ainda que minha revolta seja loucura.
Que minha loucura seja feitiçaria.
Que a fogueira esteja sempre pronta
para curar minha tensão pré-menstrual.

Ainda que minha cordialidade
seja tomada por submissão.
Que meus direitos
sejam tidos como atrevimento.
Que eu seja a mais negra.
Que eu seja a mais pobre.

Ainda assim eu resisto.
Eu sorrio.
E meu sorriso
é o mais forte e radiante
brilho desse pequeno universo

O dia amargo da mulher
Eugenia Corazon

08 DE MARÇO- MULHERES NEGRAS- Essas mulheres fizeram e fazem um importante papel na história do brasil.

jamais

Este post é uma HOMENAGEM por este 08 de Março – dia internacional das mulheres.  Esta copilação de mulheres negras que fizeram e fazem história neste país faz parte da minha homenagem para que não esqueçamos JAMAIS de nossas antepassadas e as que ainda estão de pé na luta abrindo caminho para um futuro, sem RACISMO, MACHISMO, LÉSBOFOBIA E INTOLERÂNCIAS.

 Dandara

 Dandara foi uma grande guerreira na luta pela liberdade do povo negro. Ainda no sé

culo XVII, participou das lutas palmarinas, conquistando um espaço de liderança. De forma intransigente, entendia que a liberdade era inegociável. enfrentando todas as batalhas que sucederam em Palmares. Era a companheira de Zumbi dos Palmares. Opôs-se, juntamente com ele, a proposta da Coroa Portuguesa em condicionar e limitar reivindicações dos palmarinos em troca de liberdade controlada.

Dandara morreu em 1694 na frente de batalha, para defender o Quilombo dos Macacos, mocambo pertencente ao Quilombo dos Palmares.

 Luíza Mahin

 Luíza Mahin, foi uma protagonista importante na Revolta dos Malês. Conforme alguns estudiosos, se essa revolta vingasse, Luísa seria a rainha da Bahia. Construindo um reinado em terras brasileiras, já que fora princesa na África, na tribo Mahi, integrante da nação nagô. Foi alforriada em 1812. 

 Ela também participou da Sabinada entre 1837-1838. Perseguida, acabou fugindo para o Rio de Janeiro. Não se sabe ao certo, mas imagina-se que essa importante mulher tenha sido extraditada juntamente com seus companheiros muçulmanos africanos que encabeçaram a Revolta dos Malês.

 

Carolina Maria de Jesus

 Nasceu em Sacramento, no interior de Minas Gerais, no ano de 1914.

 Sendo de uma família extremamente pobre, trabalhou desde muito cedo para auxiliar no sustento da casa. Com isso, acabou não frequentando a escola, além de dois anos. Mudou-se para São Paulo, indo morar na favela, para sustentar a si e seus filhos, tornou-se catadora de papel. Guardava alguns desses papéis, para registrar seu cotidiano na favela, denunciando a realidade excludente em que viviam os negros. Em 1960, foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que conheceu seus escritos. Assim, ela escreveu o livro Quarto de Desejos, que vendeu mais de 100 mil exemplares.

 Na imagem vemos Carolina Maria de Jesus ao lado da também escritora, Clarice Lispector.

 Tornou-se uma escritora reconhecida, particularmente fora do país, sendo incluída na antologia de escritoras negras, publicada em 1980 pela Randon House, em Nova York.

 

Aqualtune

 Filha do Rei do Congo, a princesa foi vendida como escrava para o Brasil, em razão das rivalidades existente entre os diversos reinos africanos.

Quando os Jagas invadiram o Congo, Aqualtune foi para a frente de batalha defender o reino, comandando um exército de 10 mil guerreiros.
Derrotada, foi levada como escrava para um navio negreiro e desembarcada em Recife. Dentro do sistema aviltante em que foi colocada como prisioneira, foi obrigada a manter relações sexuais com um escravo, para fins de reprodução.
Engravidada, foi vendida para um engenho de porto Calvo, onde pela primeira vez teve notícias de Palmares. Já nos últimos meses de gravidez organizou sua fuga e a de alguns escravos para Palmares.
Começa, então, ao lado de Ganga Zumba, a organização de um Estado negro, que abrangia povoados distintos confederados sob a direção suprema de um chefe.
Aqualtune instalou-se, posteriormente, num desses mocambos, povoados fortificados, a 30 léguas ao noroeste de Porto Calvo.
Uma de suas filhas deu-lhe um neto, que foi o grande Zumbi dos Palmares.

 Segundo o que aponta alguns estudos, Aqualtune era avó de Zumbi dos Palmares. Morreu queimada, quando já era idosa.

Mãe Menininha do Gantois

 Mãe Menininha do Gantois nasceu em 10 de janeiro de 1864. Era neta de escravizados da tribo Kekeré, da Nigéria. Foi iniciada no candomblé, ainda criança, no terreiro fundado pela sua bisavó. Aos 28 anos de idade, como filha de Oxum, assumiu o cargo de maior hierarquia na religião. Conseguiu estabelecer interlocuções como várias personalidades, buscando o respeito da sociedade para a religião, muito perseguida pelo poder político.

Devido aos seus poderes espirituais e sua capacidade de agregar as pessoas, conquistou o respeito até mesmo de outras religiões. Tornou-se a mais respeitável mãe de santo da Bahia, onde até hoje funciona o terreiro do Gantois, fundado em 1849, por sua bisavó. Sempre divulgava o candomblé, explicando sobre a importância do mesmo. Sua vida religiosa foi marcada pela fé e bondade. De grande carisma, Mãe Menininha do Gantois tinha respeito de personalidades importantes, dentre as quais, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

 Faleceu aos 92 anos, em 1986 na cidade de Salvador.

Tereza de Benguela

 Tereza de Benguela foi uma liderança quilombola que viveu no século XVIII. Mulher de José Piolho, que chefiava o Quilombo do Piolho ou Quariterê, nos arredores de Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso. Quando seu marido morreu, Tereza assumiu o comando daquela comunidade quilombola, revelando-se uma líder ainda mais implacável e obstinada. Valente e guerreira ela comandou o Quilombo do Quariterê, este cresceu tanto sob seu comando que chegou a agregar índios bolivianos e brasileiros. Isso incomodou muito as autoridades das Coroas, espanhola e portuguesa. A Coroa Portuguesa, junto à elite local agiu rápido e enviou uma bandeira de alto poder de fogo para eliminar os quilombolas. Tereza de Benguela foi presa. Não se submetendo a situação de escravizada, suicidou-se.

Carro alegórico na Marquês de Sapucaí com a representação de Tereza de Benguela, a rainha do Quilombo do Piolho ou Quariterê.

Em diversas situações, a história dos heróis negros e heroínas negras estão imbricadas à luta geral da população negra em contraposição ao escravismo e/ou outras várias formas de racismo presentes na sociedade brasileira. Mas é importante salientar que muitas dessas personagens continuam anônimas na história brasileira.

fonte: SANTOS, Ângela Maria dos & SILVA, João Bosco da(orgs.). História e Cultura Negra: Quilombos em Mato Grosso. Cuiabá: Gráfica Print Indústria e Editora ltda/SEDUC, 2009. pp. 32-

 ADELINA 

Escrava nascida no Maranhão, participou ativamente na campanha abolicionista da capital maranhense.
Sabia ler e escrever e, aos dezesseis anos, já freqüentava os comícios e passeatas da sociedade abolicionista de rapazes, o Clube dos Mortos.
Consciente de sua causa, Adelina passou a utilizar o seu trabalho para colaborar com os abolicionistas. Vendia charutos que seu pai fabricava e tinha, por esse motivo, fácil; acesso a todas as casas da cidade de São Luís.
Funcionando como informante do Clube dos Mortos, passava a seus companheiros os planos secretos de perseguição aos escravos.
O seu trabalho tornou-a figura importante de apoio às atividades do clube abolicionista.

 ANASTÁCIA

São poucos os dados concretos sobre essa escrava negra, filha de uma princesa africana. A aldeia dessa princesa foi invadida pelos portugueses e um comerciante portugu6es engravidou-a à força, trazendo – a em seguida para o Brasil. Anastácia teria nascido durante a viagem entre a África e o Brasil.
A princesa Anastácia, como era chamada, viveu algum tempo na Bahia, mas foi em Minas Gerias que ela passou a maior parte da sua vida, na fazenda de seu pai.
Ajudando os escravos quando eram castigados, ou facilitando-lhes a fuga, de Anastácia ficou a imagem de uma mulher de grande beleza, personalidade forte, que tinha consciência da injustiça e crueldade da escravidão.
Um dos poucos fatos conhecidos da sua vida traz a marca dessa violência: durante dois anos foi obrigada a usar uma mordaça de ferro na boca, que era retirada apenas para se alimentar.
Extremamente doente, Anastácia foi levada para o Rio de Janeiro e lá se torna famosa junto à população, por lhe serem atribuídos vários milagres.
Foi enterrada na Igreja do Rosário, no Rio, mas um incêndio ocorrido posteriormente nessa igreja destruiu a documentação que poderia nos fornecer mais elementos sobre a história da princesa Anastácia.

 ANTONIETA DE BARROS 

Nasceu em 11 julho de 1.901, em Florianópolis (SC). Era filha de Catarina e Rodolfo de Barros. Órfã de pai, foi criada pela mãe. Depois dos estudos primários, ingressou na Escola Normal Catarinense.
Antonieta teve que romper muitas barreiras para conquistar espaços que, em seu tempo, eram inusitados para as mulheres, e, mais ainda, para uma mulher negra. Nos anos 20, deu início às atividades de jornalista, criando e dirigindo em Florianópolis o jornal A Semana, mantido até 1927. Três anos depois, passou a dirigir o periódico Vida Ilhoa, na mesma cidade.
Como educadora, fundou, logo após ter se diplomado no magistério, o Curso Antonieta de Barros, que dirigiu até sua morte. Lecionou, ainda, em Florianópolis, no Colégio Coração de Jesus, na Escola Normal Catarinense e no Colégio Dias Velho, do qual foi diretora no período de 1937 a 1945.
Na década de 30, manteve intercâmbio com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) como revela a correspondência trocada entre ela e Bertha Lutz, hoje preservada no Arquivo Nacional.
Na primeira eleição em que as mulheres brasileiras puderam votar e serem votadas, filiou-se ao Partido Liberal Catarinense e elegeu-se deputada estadual (1934-37). Tornou-se, desse modo, a primeira mulher negra a assumir um mandato popular no Brasil. Foi também a primeira mulher a participar do Legislativo Estadual de Santa Catarina. Depois da redemocratização do país com a queda do Estado Novo, concorreu a deputada estadual nas eleições de 1945, obtendo a primeira suplência pela legendado Partido Social Democrático (PSD). Assumiu a vaga na Assembléia Legislativa em 1947 e cumpriu seu mandato até 1951.
Usando o pseudônimo literário de Maria da Ilha, escreveu o livro Farrapos de idéias. Faleceu em Florianópolis no dia 28 de março de 1952.
Fonte: Dicionário Mulheres do Brasil de 1500 até à atualidade

  AUTA DE SOUZA 

Nasceu em 1876 em Macaíba, Rio Grande do Norte, de uma família próspera.
Órfã de mãe aos dois anos de idade, e de pai, aos quatro, foi criada pela avó.
Em 1887 foi matriculada no Colégio são Vicente de Paula, dirigido por religiosas francesas, onde aprendeu francês e leu os clássicos e os místicos.
Com tuberculose, é obrigada a retornar à casa da avó e completar sua formação na Biblioteca do irmão, poeta, jornalista e deputado federal.
Em 1894, fundou o Clube do Biscoito, que promovia reuniões de poesia, jogos e danças, nas casas de seus associados.
Escrevendo versos em Português e Francês, Auta, mesmo antes de completar 20 anos, colaborava na imprensa de seu Estado.
Em 1901 publicou o livro “O Horto”, prefaciado por Olavo Bilac e muito elogiado pela crítica. Esse livro foi lido tanto pelos intelectuais como pela gente do povo, que transformou muito de seus versos em cantigas.
Auta de Souza morreu em 1901, com apenas 25 anos de idade.

 BRANDINA 

Atuante no movimento abolicionista de Santos, na segunda metade do século passado, Brandina era proprietária de uma pensão na antiga rua setentrional, hoje Praça da República.
Embora de origem humilde, usava o ganho do seu trabalho para dar comida, fumo e remédio aos negros que se refugiavam na Baixada Santista, colaborando ativamente com os cabos abolicionistas e com Santos Garrafão, que organizou um dos grandes quilombos de Santos: o Quilombo de Santos Garrafão.
A personalidade forte e destemida, além da qualidade de protetora tornou Brandina uma das figuras mais queridas entre os negros quilombolas da Baixada Santista.

 CAROLINA MARIA DE JESUS 

Nasceu no interior de Minas Gerais, em 1914, numa família de 9 irmãos. Tendo que trabalhar para ajudar no sustento da casa, cursou apenas até o segundo ano primário.
Mudou-se para São Paulo morando na favela do Canindé, garantia seu sustento e de seus três filhos catando papel. No meio desses papéis velhos, Carolina encontrou uma caderneta e passou a registrar, em forma de diário, o seu cotidiano de favelada.
Descoberta por um jornalista, em 1960, teve seu diário publicado com o título “ Quarto de Despejo” , hoje em sua 10º edição.
Prefaciado por Alberto Moravia, conhecido escritor italiano, “ Quarto de Despejo” foi traduzido para 13 idiomas e impressionava o mundo pela força de sua narrativa e pelo depoimento que retratava a fome e a miséria dos favelados.
Em 1961, o livro teve seu texto adaptado para o teatro por Edi Lima e encenado no Teatro Nídia Lícia, no mesmo ano.
Enquanto no Brasil Carolina era considerada um fato folclórico, seu livro era comentado pela imprensa internacional, sendo várias de suas páginas transcritas na revista americana “ Life” e na francesa “ Paris Match”
Em 1977, ao ser entrevistada por jornalistas franceses, Carolina entrega-lhes os apontamentos biográficos onde narra sua infância e adolescência marcadas pela pobreza e discriminação racial. Em 1986 esses apontamentos são publicados sob o título de “ Diário de Bitita” , pela editora Nova Fronteira.
Antes desses apontamentos, Carolina publicou ainda os seguintes livros: “ Casa de Alvenaria” , “ Provérbios” e “ Pedaços da Fome” .
Carolina morreu em 1977 na mais completa miséria.

TIA CIATA – HILÁRIA BATISTA DE ALMEIDA


Nasceu em Salvador, em 1854. Filha de Oxum, no Candomblé, foi iniciada nos preceitos do santo casa de Bambochê, na nação Ketu.
Aos 22 anos e com uma filha, mudou-se para o Rio de Janeiro, formando nova família e continuando os preceitos na casa de João Alabá, tornando-se Mãe- Pequena.
Tia Ciata era muito respeitada pelos seus conhecimentos de religião e não deixava de comemorar, em sua casa, as festas dos Orixás quando, depois da cerimônia, armava pagode.
Essas festas chegavam a durar por volta de três dias.
Muito boa doceira, punha barraca de comidas na festa da Penha e em volta se formavam rodas de samba, com a participação de Donga, Heitor dos Prazeres, Sinhô e Pixinguinha, alguns deles ainda desconhecidos como artistas.
Sua casa tornou-se a capital da Pequena África, no Rio de Janeiro, e era um dos pontos obrigatórios dos cortejos de Carnaval, onde os ranchos passavam para reverenciar a velha baiana.
Tia Ciata morreu em 1924.

 RAINHA TERESA DO QUARITERÊ

Líder quilombola do século XVIII não sabemos se era natural de Benguela, Angola ou se nasceu no Brasil. Para nós, mulheres negras, importa o exemplo de garra e competência na luta contra a opressão.
O Quilombo do Quariterê em Cuiabá ficava próximo à fronteira de Mato Grosso com a Bolívia.
Sob a liderança da Rainha Teresa, a comunidade negra e indígena resistiu à escravidão por duas décadas sobrevivendo até l.770.
A Rainha Teresa comandou a estrutura política, econômica administrativa do Quilombo mantendo um sistema de defesa com armas trocadas com os brancos ou resgatadas das vilas próximas ao quilombo.
Os objetos de ferro utilizados contra a comunidade negra que lá se refugiava eram transformados em instrumento de trabalho, visto que dominavam o uso da forja.
O Quilombo do Quariterê, além do parlamento e de um conselheiro para rainha, desenvolvia agricultura de algodão possuindo teares onde se fabricavam tecidos que eram comercializados fora dos quilombos como também os alimentos excedentes.
Fonte: Benedita da Silva- Nós Mulheres Negras- Colaboração Helena Teodoro in Dicionário Mulheres do Brasil- 2000- Jorge Zahar Editores.

 Rosa maria agipcia da vera cruz

Vinda da Costa da Mina, na África, Rosa chegou ao Rio de Janeiro em 1725, aos seis anos de idade. Comprada como escrava, aí permaneceu até aos 14 anos, quando foi vendida para Minas Gerais.

Em Vila da Inconfidência, foi escrava de ganho, na prostituição, até que um dia entrou em transe e julgaram-na possuída por um espírito maligno. Quando em transe nas igrejas, Rosa caía desmaiada no chão.
O Bispo de Mariana mandou examiná-la por uma equipe de teólogos e, considerada como herege, foi açoitada em praça pública, ficando paralítica de um braço. O Pe. Gonçalves Lopes, um exorcista, acreditando na sua sinceridade, deu-lhe alforria. Levou-a para o Rio de Janeiro e lá fundaram em 1754 o Recolhimento de Nossa senhora do Bom Parto, onde Rosa se reuniria a algumas mulheres pobres, na maioria negras. Em homenagem a uma santa oriental que de prostituta se transformara em eremita, Rosa adota o nome de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz.
Tendo aprendido a ler, passa a registar suas visões e experiências místicas, iniciando o livro “Sagrada Teologia de Amor de Deus Luz Brilhante das Almas Peregrinas”.
Novamente suspeita de heresia e bruxaria é presa e enviada com seu confessor a Lisboa para julgamento. O seu processo não chegou a ser concluído, levando-nos a crer que tenha morrido antes da sentença.
Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987.

 Rita maria

Filha de escravos, viveu na Ilha de Florianópolis, capital da então Província de Santa Catarina e residiu nas proximidades do Forte Santana, denominada Praia da Feira, onde se localizava o atracadouro das embarcações, vindas do continente para descarga e comercialização de mercadorias. Rita Maria cozinhava e lavava para comerciantes que passavam por ali.
Benzedeira e curandeira, gozava de muito prestígio junto à população, que chegou, inclusive, a batizar com seu nome o bairro em que ela morava.
O bairro, denominado pelo povo, de Rita Maria, deixou de existir, mas a população exigiu que fosse mantida viva a sua história na Ilha, dando seu nome à Estação Rodoviária, de construção moderna, construída em local próximo ao bairro antigo que levava seu nome.
Muitas pessoas ainda se lembram de Rita Maria como uma senhora negra, gorda, com mais de 80 anos, sempre risonha, vista todos os domingos na Igreja Nossa senhora do Bom Parto.
Rita Maria morreu na década de vinte e foi enterrada no Cemitério do Morro, perto de sua casa.
Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987

  NEUMA GONÇALVES DA SILVA


Nasceu em 8 de junho de 1922, no Rio de Janeiro, filha de Saturnino Gonçalves, primeiro presidente da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira.
É sócia número um da Mangueira e foi sua conselheira nata. Foi passista, presidente da Ala das Baianas e nos últimos anos desfilava como destaque. Fundou o Departamento Feminino da Mangueira onde continuou atuando com bastante vibração e energia.
Brigona e emotiva, D. Neuma foi a maior força política e social da comunidade mangueirense, atuando em todas as decisões da Escola até à sua morte em dezembro de 2002.
Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987.

Nair theodora de araujo

Nasceu em 22 de junho de 1931, na cidade mineira de Dores do Indaiá, transferindo-se mais tarde para São Paulo.

Cursou o Normal e optou pelo canto lírico em Conservatório Musical. Integrou os corais Corbi e da Igreja metodista.Participou da organização do Teatro experimental do Negro de São Paulo e atuou no musical “O Cordão” e nas peças ‘África”, dirigida por Dalmo Ferreira, “Os Ossos do Barão”, e “Veredas da Salvação”, essa última sob a direção de Antunes Filho.

Participou da fase efervescente do Teatro de Arena e na criação e produção da peça “Arena canta Zumbi”.

Dirigiu o Departamento Cultural da Associação Cultural do Negro, escreveu para o jornal “Clarim da Alvorada”, porta- voz da entidade, e realizou vários debates sobre o negro em rádios, televisões e universidades.Com destacada atuação na população negra, a atriz criou a Livraria Contexto, em SP, onde ainda hoje se encontram várias publicações sobre o negro.

Escreveu vários poemas, até hoje inéditos.

Nair Theodora morreu em 20 de maio de 1984.Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987.

 Na agontime

 O relatório final do Colóquio da Unesco sobre as Sobrevivências das Tradições Africanas no Caribe e na América Latina, realizado em julho de 1985, em São Luís do Maranhão declara:

“A Casa das Minas foi fundada em São Luís do Maranhão, no Brasil, pela rainha Na Agontimé, mãe do rei Guezo do Daomé (atual Benin), condenada à deportação num acerto de contas no seio da família real antes que seu filho ascendesse ao trono em 1819”.
A confirmação destes fatos foi feita por Pierre Verger, pesquisador da tradição religiosa africana no Brasil, que em 1948, teve acesso aos nomes de certos vodus do culto daomeano, através da Mãe Andresa, da Casa das Minas, em São Luís do Maranhão.
Ainda no mesmo ano, realizando pesquisa na Costa da África, Verger descobriu que os nomes dos vodus da Casa das Minas eram conhecidos como sendo da família real do Daomé.
Alguns dos nomes são conhecidos apenas pelos sacerdotes de Abomé (capital do Daomé/Benin). O fato de Verger ter encontrado esses nomes no Brasil, foi para os sacerdotes a prova de que existiam no Brasil descendentes de membros da família real.
A história começa com a luta pela sucessão ao trono de Daomé: O rei Agonglo do Daomé tinha como sucessor legítimo um dos seus filhos, o príncipe Adanzan (ou Adandozan), mas o caráter sanguinário deste fazia temer sua chegada ao trono, levando o pai (rei Agonglo) a consultar o oráculo (Fa) para saber se haveria uma escolha melhor.
O oráculo designou Guezo, um dos filhos mais jovens de Agonglo. Guezo foi então apresentado como sucessor, ficando Adanzan, como regente durante a menoridade do irmão. Ele governou 22 anos anos e Guezo teve que lutar para assumir o trono. Adanzan, que era filho de outra mulher do rei Agonglo, havia vendido aos mercadores de escravos da Costa, Na Agontimé, mãe de Guezo e uma parte de sua família.
Quando o rei Guezo quis encontrar sua mãe, encarregou Francisco de Souza (o Xaxá do forte Ajudá), o maior traficante de escravos, de intermediar essa busca. Dois enviados do rei levavam cartas de recomendacao.para os grandes plantadores dos países para onde eram levados os escravos comprados do Daomé.
Os enviados fizeram diversas viagens para as Antilhas e para o Brasil.
Uma outra pesquisadora, Judith Gleason, escreve que quando os emissários chegaram à Casa das Minas, à procura da rainha Na Agontimé para levá-la de volta a Abomé, explicaram-lhe que o seu filho, Guezo, havia apagado a memória de Adanzan da memória do reino. O próprio trono de Adanzan havia sido expedido para o Brasil, oferecido como presente do rei Guezo para a coroação do imperador Dom Pedro I. Pode ser esse o trono exposto atualmente no Museu Nacional do Rio de Janeiro.
Fonte: Anais do Colóquio da Unesco sobre as Sobrevivências das Tradições Africanas no Caribe e na América Latina; Verger, Pierre em “Os libertos – Sete caminhos na liberdade de escravos da Bahia no século XIX” Ed. Corrupio; Sérgio Ferretti “Querebentan de Zomadonu:Etnografia da Casa das Minas.

 MARIA PATRÍCIA FOGAÇA

Maria Patrícia foi uma mulher negra do povo, que se destacou por seu trabalho de parteira, na vida social da Baixada Santista.
Nasceu em 1838, em Santos, filha de negros forros e teve como padrinho de batismo José Bonifácio dos Andradas.
Exercendo a profissão de parteira numa época em que essa atividade era realizada apenas por mulheres brancas, Maria Patrícia teve que enfrentar uma enorme campanha de descrédito movia por suas concorrentes.
Sua competência e a consideração que desfrutava em todas as classes sociais, fizeram-na superar esses obstáculos criados em função da sua cor.
Maria Patrícia não fazia da sua profissão apenas uma fonte de sobrevivência, mas encarava-a como um verdadeiro sacerdócio, atendendo mulheres das mais diversas condições econômicas, com uma dedicação e sensibilidade que a tornaram além de parteira, uma espécie de conselheira das famílias que a solicitavam.
Sua morte, em 1913, comoveu profundamente a Baixada Santista.
Fonte: Cartilha “Mulher Negra tem História”
Alzira Rufino, Nilza Iraci, Maria Rosa, 1987.

MARIA FELIPA DE OLIVEIRA

 

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Maria Felipa de Olveira,  ou simplesmente Maria Felipa, é uma heroína       baiana esquecida por um grande número de historiadores.

Não se sabe  qual a data do seu nascimento. 

Sabe-se apenas que Maria Felipa era uma mulher negra, alta, alegre e corpulenta  que nasceu em Itaparica onde exerceu as profissões  de marisqueira e  capoeirista.

Nasceu escrava.  Depois foi libertada  e como liberta trabalhou  coletando mariscos e jogando  capoeira, nas horas vagas.

Aprendeu a luta da capoeira para vadiar e se defender. Queria que o Brasil se libertasse da dominação portuguesa, que para ela era a única responsável pela escravidão dos seus avós e descendentes.

Para cumprir seu destino, começou  se escondendo no outeiros da Fazenda 27, em Gameleira (Itaparica), para acompanhar, duranre a noite, a movimentação das caravelas lusitanas.

Em seguida, tomava uma jangada e ia para Salvador, passar as informações para o Comando do Movimento de Libertação.

Não satisfeita com sua atuação na retaguarda, resolveu partir para luta.

Sabia que uma frota de 42 embarcações estava prestes a atacar a capital da Bahia e arquitetou um plano, disposta a executá-lo.

Sob o comando de Maria Felipa,  quarenta mulheres desceram a Praia do Convento, vestidas a caráter, com sais rodadas e batas que deixavam um pedaço  do ombro desnudado..

Afirma a tradição oral que elas “seduziram a maioria dos soldados e seus comandantes e levaram-nos para um lugar ermo”. Quando eles, animados, ficaram sem roupa, elas aplicaram-lhes uma  surra de cansanção.”

Impunhando  a  planta irritante,  causaram  nos soldados inimigos uma mistura infernal de dor e coceira, deixando-os desarvorados.

 “O ataque inesperado, vindo de um bando de mulheres, tirou o sossego do acampamento.  A surra com os galhos de cansanção deixou os marinheiros sem reação. Enquanto eles se contorciam no chão, esfregando a pele na areia para retirar a peçonha, as mulheres atiravam tochas nos barcos mais próximos. O saldo de tão engenhoso ataque foi de 42 embarcações queimadas, uma baixa significativa na frota reunida pelo general Madeira de Melo para atacar Itaparica.”

Esta  foi uma ação decisiva para a vitória das tropas brasileiras, as quais, vindas do Recôncavo, entraram em Salvador no dia 2 de julho de 1823, sob ovação popular.

Xavier Marques registra o acontecimento em seu romance, bem como Bernadino Nóbrega, Inácio Accioly e Jurandir Pires Pereira.

Maria Felipa faleceu, em completo ostracismo, em 4 de janeiro de 1873.

Sua memória continua esquecida. O historiador Ubaldo Osório foi o primeiro a descobrir  Maria Felipa.  Seu neto, o escritor João Ubaldo, em seu livro “O Povo Brasileiro”, cognomina-a  “Maria da Fé”. A professora Eny Kleyde, diretora do Centro de Estudos de Pós Graduação das Faculdades Integradas Olga Mettig, publicou um livro sobre a heroína negra.

No restante, completo silêncio.

LÉLIA GONZALEZ

Filha de um ferroviário negro e de uma empregada doméstica indígena era a penúltima de 18 irmãos, entre eles o futebolista Jaime de Almeida, que jogou pelo Flamengo. Nascida em Belo Horizonte, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1942.2

Graduou-se em História e Filosofia e trabalhou como professora da rede pública de ensino. Fez o mestrado em comunicação social e o doutorado em antropologia política. Começou então a se dedicar à pesquisas sobre relações de gênero e etnia. Foi professora de Cultura Brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde chefiou o departamento de Sociologia e Política.

Como professora de Ensino Médio no Colégio de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (UEG, atual UERJ), nos difíceis anos finais da década de 1960, fez de suas aulas de Filosofia espaço de resistência e crítica político-social, marcando definitivamente o pensamento e a ação de seus alunos.

Ajudou a fundar instituições como o Movimento Negro Unificado (MNU), o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), o Coletivo de Mulheres Negras N’Zinga e o Olodum. Sua militância em defesa da mulher negra levou-a ao Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), no qual atuou de 1985 a 1989. Foi candidata a deputada federal pelo PT, elegendo-se primeira suplente. Nas eleições seguintes, em 1986, candidatou-se a deputada estadual pelo PDT, novamente elegendo-se suplente.3

Seus escritos, simultaneamente permeados pelos cenários da ditadura política e da emergência dos movimentos sociais, são reveladores das múltiplas inserções e identificam sua constante preocupação em articular as lutas mais amplas da sociedade com a demanda específica dos negros e, em especial das mulheres negras

Saraí Soares

Nascida em 24 de junho de 1965, em Santa Maria, transferiu-se para a Capital e ganhou reconhecimento pelo trabalho como conselheira tutelar, na defesa das crianças da periferia e da questão racial. De origem humilde, morou sempre na Vila Cruzeiro, e tornou-se militante do PT. Foi suplente de vereador em Porto Alegre na legislatura 1997-2000, quando assumiu a cadeira por diversas vezes. Nas eleições de 2012, concorreu a uma vaga na Câmara e ficou na suplência. Faleceu em 02/04/2013

Marcia Santana

Assistente social e ligada ao movimento feminista, Márcia foi chefe de gabinete da secretária de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, quando deputada federal. Trabalhou pela defesa da infância e fim da exploração sexual de crianças e adolescentes no Rio Grande do Sul e no Brasil, bem como no combate à violência doméstica. Faleceu em 13/03/2013

Sueli Carneiro

 Em 1984, o governo de São Paulo criou o Conselho Estadual da Condição Feminina. Alertado pelo programa da radialista negra Marta Arruda de que não havia negras entre as 32 conselheiras convocadas, o conselho convidou Tereza Santos, que militava no movimento negro ao lado de Sueli Carneiro, teórica da questão da mulher negra. Na gestão seguinte, foi a vez de Sueli fazer parte do conselho. Em 1988, foi convidada para integrar o Conselho Nacional da Condição Feminina, em Brasília. Antes de partir, no entanto, fundou o Geledés – Instituto da Mulher Negra, primeira organização negra e feminista independente de São Paulo.

Criou o único programa brasileiro de orientação na área de saúde específico para mulheres negras. Semanalmente mais de trinta mulheres são atendidas por psicólogos e assistentes sociais e participam de palestras sobre sexualidade, contracepção, saúde física e mental na sede do Geledés. Recebeu a visita de um grupo de cantores de rap da periferia da cidade, que queriam proteção porque eram vítimas frequentes de agressão policial. Ela decidiu criar então o Projeto Rappers, onde os jovens são agentes de denúncia e também multiplicadores da consciência de cidadania dos demais jovens

Sueli Chan Ferreira

426029_10150865711284202_209228618_né pedagoga, educadora social, fundadora da OSCIP Zulu Nation Brasil.

Lúcia Xavier 

é coordenadora da Criola, assistente social e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial representando a Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB) da qual é secretária-executiva. Atua nos temas: raça, gênero, direitos humanos, políticas públicas, saúde da mulher negra e antiracismo.

Laudelina Campos Melo

Nasceu em 12 de outubro de 1904, em Poços de caldas, MG. Seus pais eram negros alforriados pela Lei do ventre Livre, em 1871.

Laudelina, aos 12 anos, perdeu o pai de forma trágica. Este trabalhava no corte de madeira, no Paraná, e foi atingido por uma tora que havia sido cortada por um de seus irmãos. Laudelina teve então que abandonar os estudos, ainda na escola primária, para assumir o cuidado dos cinco irmãos menores, para que sua mãe fosse trabalhar em um hotel. Adolescente, auxiliava a mãe na confecção de doces e compotas caseiras, para serem vendidos na cidade. Aos 20 anos, passou a ser empregada doméstica, o que a levou a mudar-se para Santos, São Paulo, onde casou-se e teve um filho.Em Santos passou a integrar um grupo chamado Frente Negra que abrigava várias entidades com propósitos de ampliação política e cultural para a população negra. Em 1936, surgiu a idéia de criar uma associação para empregadas domésticas. Simultaneamente instituições parecidas foram criadas na cidade de São Paulo, sob a coordenação do professor Geraldo de Campos Oliveira, presidente do Clube Cultural Recreativo do Negro e membro do partido Libertador, e outra em Santos, sob a responsabilidade de Laudelina. Durante o Governo Vargas, as organizações de trabalhadores foram proibidas. Só após a abertura política a associação retornou as atividades, tendo Laudelina a frente como presidente. Em 1948, foi convidada pela família para a qual trabalhava como governanta para ser gerente do hotel fazenda que tinham em Mogi das Cruzes, São Paulo, lá permaneceu por três anos.Com a morte de sua patroa, Laudelina foi para Campinas, cidade onde davam preferência às empregadas brancas. Inconformada com este fato, Laudelina foi ao jornal Correio Popular para se manifestar contra os anúncios preconceituosos por eles publicados.Integrou-se então ao Movimento Negro de Campinas. Em 1961, obteve o apoio do Sindicato da Construção Civil de Campinas para fundar, em suas dependências, a associação de empregadas domésticas de Campinas. A Associação Profissional Beneficiente das Empregadas Domésticas atuou em diferentes frentes, especialmente na luta contra o preconceito racial. Cerca de 1200 trabalhadoras domésticas compareceram ao ato de inauguração da associação, em 18 de maio de 1961. Com o golpe militar de 1964, a associação deveria ser fechada, para que isso não acontecesse, Laudelina aceitou abrigá-la na União Democrática Nacional – UDN. Em 1968 adoeceu durante o processo de sucessão da entidade, o qual levou a dissolução da entidade, levando-a a se desvincular do movimento de empregadas domésticas.
Retomou a direção da entidade em 1982, procurada por suas antigas companheiras. Em 1988 a associação transformou-se no sindicato das empregadas domésticas e continuou a lutar em favor do direito das empregadas domésticas.Morreu em 22 de maio de 1991.

Fonte:
Dicionário Mulheres do Brasil de 1500 até a atualidade. Jorge Zahar editor, RJ, 2000.

 

Mãe Beata de Iyemonjá

BEATRIZ MOREIRA COSTA, nascida em 20 de janeiro de 1931, em Cachoeira do Paraguaçu, Recôncavo Baiano, filha de Maria do Carmo e OscarMoreira, utiliza-se da mãe e do pai como exemplos de vida. 

“Minha mãe chamava-se do Carmo, Maria do Carmo. Ela tinha muita vontade de ter uma filha. Um dia, ela engravidou. Acontece que, num desses dias, deu vontade nela de comer peixe de água doce. Minha mãe estava com fome e disse: ‘Já que não tem nada aqui, vou para o rio pescar.’ Ela foi para o rio e, quando estava dentro d’água pescando, a bolsa estourou. Ela saiu correndo, me segurando, que eu já estava nascendo. E eu nasci numa encruzilhada. Tia Afalá, uma velha africana que era parteira do engenho, nos levou, minha mãe e eu, para casa e disse que ela tinha visto que eu era filha de Exu e Yemanjá. Isso foi no dia 20 de Janeiro de 1931. Assim foi o meu nascimento.”

Sua mãe, mulher negra trabalhadora, mas de saúde frágil, legou à sua filha grande respeito à pessoa humana e seu pai, Oscar, a característica de saber lidar com as ferramentas do trabalho e da vida.

Na década de 50 Beatriz muda-se para a cidade de Salvador, ficando sob os cuidados de sua tia Felicíssima e seu marido, Anísio Agra Pereira (Anísio de LogumEde, babalorixá) , na Avenida Ribeiro dos Santos na Sete Portas. Durante dezessete anos, Beata (como é conhecida desde a infância) foi abian de seu tio, que posteriormente falece levando-a a procurar Mãe Olga do Alaketu, que a inicia no candomblé para o orixá Iemanjá no terreiro Ilê Maroia Laji (Alaketu – Salvador).

Mulher que mesmo presa a princípios tradicionais em razão da influência de uma família patriarcal torna-se de vanguarda ao fazer cursos de teatro amador e participar de grupos folclóricos. Casa-se com Apolinário Costa, seu primeiro namorado, com quem teve quatro filhos, Ivete, Maria das Dores, Adailton e Aderbal Moreira Costa. Sua mãe Maria do Carmo antes de falecer tutela a filha a sua yalorixá , Olga do Alaketu.

Em 1969 Biata separa-se de seu marido e migra para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida para ela e sua prole, história comum a tantas outras mulheres negras nordestinas, o sonho da cidade grande.

Sem apoio da família consangüínea, é na família-de-santo que encontra acolhimento, a história se repete no sentimento de resistência do quilombo contemporâneo que reconstrói a auto-estima desta mulher negra.

Para as famílias tradicionais da Bahia da época, mulher separa era mulher de ninguém, ainda mais com quatro filhos. Canta-se um samba, um samba-de-roda baiano que “samba bom é de madrugada, mulher sem homem não vale nada”, por certo não se enquadrava nesse perfil a figura dessa mulher ímpar.

Cria seus filhos com muita dificuldade, porém de modo digno, exercendo várias funções para prover o sustento próprio e dos filhos, como empregada doméstica, costureira, manicure, cabeleireira, pintora e artesã.

Com todas essas atividades e uma jornada árdua de mulher negra nordestina e separada, estigmas fortes para a época, não esquece seus laços religiosos, atuando em várias comunidades de terreiro no Rio de Janeiro mantendo e preservando sua descendência ancestral religiosa negra.

Começa a trabalhar como figurante na Rede Globo de Televisão, atividade resultante de contatos já existentes em Salvador, onde participou da novela “Verão Vermelho”, filmada na referida cidade. Logo após, consegue trabalho como costureira na mesma empresa, onde se aposenta e mantêm contatos com amigos até os dias de hoje.

Entre as décadas de 70 e 80 Biata faz várias viagens a Salvador para cumprir seus deveres religiosos com a Casa de Candomblé na qual foi iniciada, visto que, mesmo atuando religiosamente em casas de parentes religiosos no Rio de Janeiro, seu cordão umbilical estava preso à sua casa matriz, precisava saciar sua sede na fonte.

Durante este espaço de tempo a yalorixá, Olga do Alaketu, tem importância fundamental em sua vida, aconselhando e acolhendo a filha que lhe foi tutelada pela mãe biológica, a figura da mãe ancestral se faz presente. Ao entregar Biata à Olga, Maria do Carmo dá o sentido de continuidade a figura maternal, a mãe africana que acolhe e sustenta seus filhos, característica ainda hoje preservada nas comunidades religiosas de matriz africana.

Em 20 de abril de 1985 Mãe Olga do Alaketu vem ao Rio de Janeiro outorgar a sua filha o direito de ser chamada de “Mãe”, mais uma vez o ciclo se repete, o Ilê Omi Oju Arô (Casa das Águas dos Olhos de Oxóssi) casa em que Mãe Biata passa a ter o cargo de yalorixá. Transmite à comunidade de forma natural toda essa experiência de luta, absorvida facilmente por todos, dando início à participação ativa em discussões sobre questões raciais, sociais e políticas, tendo maior atuação nas questões de gênero, com enfoque principalmente sobre as mulheres negras.

Assim como Biata recebe de seu pai e de sua mãe ensinamentos de vida, ela consegue propagar á sua comunidade religiosa os mesmos princípios. O Ilê Omi Oju Arô, comunidade na qual Biata é sacerdotisa suprema, atua em diversas frentes sociais: religião e saúde, luta contra qualquer forma de discriminação e contra a intolerância religiosa, cultura da paz, acesso à educação, ações afirmativas, saúde da população negra, movimento de diálogo inter-religioso, direitos humanos, movimento de mulheres negras e movimento negro.

 Maria Auxiliadora Silva

Mineira de Campo Belo (1935-1974), Maria Auxiliadora é da família dos Silva: 18 irmãos, vários artistas. A mãe, inicialmente lavadeira, depois escultora; o pai assentava dormentes em estrada de ferro.

Procurando melhorar a vida, mãe e crianças mudaram-se para São Paulo, onde a filha mais velha ajudava a família bordando para fora e trabalhando como doméstica. Pintando desde menina tendo as paredes de sua casa como tela, depois tábuas e finalmente, por volta dos 32 anos de idade, dedicando-se exclusivamente à pintura , Maria auxiliadora desenvolveu uma técnica própria, moldando as figuras em gesso no próprio quadro, escrevendo enredos nas pinturas.

Expôs na Praça da República (SP) no início dos anos 70, passando daí para galerias, premiações em salões, museus e casa de colecionadores brasileiros e estrangeiros. A temática de seus quadros coloridos conta um pouco da vida desta pintora autodidata: trabalho na roça; cenas familiares com quartos abarrotados, mesas de domingo, namoro em bailes ou ao redor da tevê; festas de candomblé; escola (chegou a fazer o mobral); e, nos últimos trabalhos, a intimidade com a morte. Depois de várias operações, Maria Auxiliadora morreu de câncer generalizado, aos 39 anos de idade.

Maria Lata D’Agua

Importante passista das escolas de samba, trouxe a figura da mulher negra trabahadora e lutadora para a passarela do carnaval.


Clementina de Jesus

Cantora

Clementina-de-Jesus-1-300x300Nascida numa região povoada por negros bantos, á epoca da escravidão colonial, Clementina de Jesus era filha de uma negra liberta sobre a lei do ventre livre, seu pai era pedreiro e violeiro. Nasceu na cidade de Valença – Marquês de Valença – estado do rio de Janeiro. Sua data de nascimento ninguém soube ao certo, em seus documentos – batismo, casamento e maternidade – haviam diferentes datas que variavam de 1900 a 1907, portanto ela nasceu em cerca de 14 anos depois da abolição.

Como ela mesma dizia, sua avó era “Mina da África”, denominação dada as negras escravizadas oriundas de São Jorge de Mina, na Costa Africana. Sua referência musical vinha desta origem. Sua mãe lavava roupas entoando cânticos católicos, bem como cantigas aprendidas com seus pais, o jongo e o caxambu.

Por volta de seus oito anos, veio com a mãe e o pai, para o Rio de Janeiro, como ela mesmo dizia: ” Meu pai vendeu tudo. Vendeu até galinha a 200 réis cada uma, meia dúzia de ovos por um tostão, e o dinheiro que juntou embarcamos para cá, onde estava meu tio, na rua Barão, 54 “.

Passou, então, a viver em Jacarepaguá, onde teve sua primeira experiência musical, como pastora nos folguedos de natal de origem portuguesa, organizados pelo senhor João Cartolinha, Mestre Pastoril e festeiro da região, de quem ganhou o apelido de Quelé. Cantou também no coro do orfanato Santo Antônio, onde estudava como semi – interna.

Com a morte do pai, mudou-se com sua mãe para a casa de um outro tio na Boca do Mato. Ainda amiga de João Cartolinha, Clementina fora convidada a visitar um clube chamado Moreninha de Campinas, próximo à Oswaldo Cruz, reduto do samba carioca.

Num território de samba e curimba, Clementina, de formação católica, afirmava: “Eu gostava ( das festas, dos rituais), mas nunca acreditei (…) não desfaço, cada um segue a sua linha, suas coisas”. Foi diretora da escola de Samba Unidos do Riachuelo, onde o diretor de harmonia era ninguém menos que Aniceto, que viria a ser fundador do Império Serrano.

Nessa época Clementina ganhava o mundo do samba, enquanto sua mãe era reconhecida como Dona Amélia Rezadeira, “tirava quebranto, vento virado, olho gordo e espinhela caída”.

Viveu um romance de 37 anos com Albino Correia da Silva – o Pé Grande – quinze anos mais novo, um fã apaixonado por seu trabalho, a quem chamava de Pé, e afirmava: “Não é que o pé era grande mesmo, calçava 43”. Com o casamento foi viver no morro da Mangueira, onde saia na ala das baianas, e fora eleita Princesa da Velha Guarda, em 1956. Mas era enfática; “Saio na Mangueira por causa de meu marido, mas sou Portelense”.

Entrou para o rol dos grandes artistas nacionais sob os cuidados de Hermínio Bello de Carvalho. Aos 63 anos de idade, saía da área de serviço de sua patroa para os palcos para ganhar o reconhecimento de especialistas da música nacional. De 7 de dezembro de 1964, onde fez sua primeira apresentação profissional, a 24 de maio de 1987, Quelé fez 54 shows.

As palavras de Ary Vasconcelos resumi um pouco sua história: “Em nossos ouvidos mal acostumados pela seda e pelo veludo produzido pelos cantores da época, a voz de Clementina penetrou como uma navalha. A ferida ainda está aberta e sangra, mas isso é saudável: serve para nos lembrar que a África permanece viva entre nós”.

Considerada o “oposto da introspecção de João Gilberto e Nara Leão, modelos de bossa nova, surgida seis anos antes (…) A música popular sofria confrontos estéticos, de um lado a bossa nova (…) e do outro, o ainda tímido aparecimento de compositores dos morros e subúrbios cariocas”.

Clementina encantou o Professor Mozart de Araújo, que considerava o registro de sua obra um valor patrimonial inestimável.Segundo Ney Lopes, “as mais fortes evidências da bantuidade, pelo menos musical de Clementina está no seu repertório profano. Nele vamos encontrar imemoriais jongos, corimbas, corimas ou curimás, onde pinçamos vocábulos e expressões de origem banta, como “cangoma”, “cacarecô”, “quizumba”, “saravá”. E vamos encontrar, evidentemente muito samba”, e continua: “Clementina tinha bastante afinidade com as manifestações como pastorinhas e folias de reis, características do ciclo natalino. E saiba-se que desde os primeiros tempos da escravidão e até muito tempo depois dela, o dia 6 de janeiro, que o calendário católico consagra à Epifania ou Adoração dos reis Magos, foi o grande dia do carnaval dos negros escravos e libertos.”

E este mesmo Ney Lopes a define: “Uma negra nascida, ainda sob os ecos dos tambores da abolição, nas proximidades do Vale do Paraíba, como os fundadores das primeiras comunidades negras cariocas, em locais como Mangueira, Salgueiro, Serrinha. Uma senhora cantora que teve seu trabalho de maior expressão construído através da recriação de jongos, corimas, lundus e sambas da tradição rural, afirmando-se assim, como uma espécie de “elo perdido” entre a ancestralidade musical banta e o samba urbano, espinha dorsal e corrente principal da música popular brasileira”.

O seu padrinho profissional, Hermínio Bello de Carvalho, diz: “Clementina de Jesus faz parte dessa galeria de artistas que constroem novas latitudes para a compreensão de um país tão prolixo em culturas como o nosso. Diria, ousando na comparação, que ela conceitualmente produziu, em nossas aldeias, impacto semelhante ao que Picasso provocou na pintura ao rascunhar, em 1907, o Les Demoiselles d’Avignon, estimulando a ruptura com arcaicos conceitos de beleza então vigentes.”

Ainda com todo esse reconhecimento, Quelé morreu no dia 19 de julho de 1987, vítima de enfarto, e foi velada no teatro João Caetano ao som do partido Clementina cadê Você? Até aí, viu-se enrolada em promessas não cumpridas de gravações e passou a percorrer bares, noites e madrugadas fazendo shows a preços baixíssimos.Apresentou-se em públio pela última vez em 24 de maio de 1987, num restaurante no Méier.

A homenagem de maior impacto- inclusive pelas críticas indignadas dos mais puristas – deu-se no teatro municipal, por iniciativa do então secretário de cultura do Estado do rio de Janeiro, Darcy Ribeiro, em agosto de 1983. “Clementina é a voz de milhões de Negros desfeitos no fazimento do Brasil”dizia.

OBRA
Toda a discografia de Clementina de Jesus, em certa medida, é conseqüência do espetáculo Rosa de Ouro – produzido por Hermínio Bello de Carvalho. Essa discografia compõe-se, basicamente, de 11 LPs, começando com o Rosa de Ouro inaugural, de 1965, pela Odeon, e culminando com o Canto dos Escravos, em 1982, pelo selo dos Estúdios Eldorado. Hermínio Bello de Carvalho produziu nove desses discos, oito pela Odeon e um para o Museu da Imagem e do Som, em 1970 – Clementina cadê Você?, expressão que desde o partido alto de Elton, torno-se um prefixo, uma marca da cantora, Já o disco Clementina e convidados, de 1979, foi produção de Fernando faro.

Adelina – A Charuteira

Escrava e abolicionista

Maranhense, de São Luís, Adelina era filha de uma escrava com um senhor. Sabia ler e escrever, porém seu pai não cumpriu a promessa de libertá-la aos 17 anos de idade.Já na adolescência, seu pai empobreceu e passou a fabricar charutos. Adelina era então sua vendedora, circulando pela cidade, vendia charutos para os bares da cidade, bem como para fregueses avulsos. No Largo do Carmo, onde costumava parar, vendia charutos para os estudantes do Liceu, onde teve a oportunidade de assistir a comícios abolicionistas promovidos por esses.

Com a facilidade em que circulava pela cidade, Adelina era uma importante informante a cerca das ações da polícia aos ativistas e ainda ajudava na fuga de escravos, cooperando assim com o movimento abolicionista.

Fontes:

– Caderno de Formação do MNU – Movimento negro Unificado.
– Dicionário Mulheres do brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Jorge Zahar Editor, 2000.

 Ana

Liderou uma revolta de escravos ocorrida em uma fazenda no interior do Ceará, no ano de 1835.

Ana, fingindo submissão aos capangas da fazenda onde era escrava, facilitou a entrada dos escravos rebelados à casa grande, tomando-a de assalto, mataram todos os que estavam na casa, e atearam fogo a propriedade, situada na serra do Ibiapaba, no Ceará. Alguns dos escravos revoltos fugiram rumo a Pernambuco, outros, liderados por Ana, libertaram da cadeia do lugar o senhor Jerônimo Cabaceira, proprietário de um sítio na região, preso por ter se recusado a vender suas terras ao Senhor Francisco Carvalho, proprietário dos escravos revoltados. Este era conhecido na região por atos violentos e autoritários, ausente de sua propriedade no instante da revolta, tentou ao tentar retornar, foi interpelado por Jerônimo Cabaceira e seus irmãos, o que provocou o enforcamento de Francisco Carvalho.A revolta se deu num instante de indignação dos escravos da senzala contra os violentos castigos impostos a uma velha escrava que cuidava dos enfermos.

Fontes:
– Caderno de Formação do MNU – Movimento negro Unificado.
– Dicionário Mulheres do brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Jorge Zahar Editor, 2000.


Mariana Crioula

Viveu em Paty do Alferes, distrito da Vila de Vassouras, região do Vale do paraíba – Rio de janeiro. Era Mucama e costureira de Francisca Xavier, senhora das fazendas cafeeiras Maravilha e Freguesia. E embora fosse casada com o negro José, escravo que trabalhava na lavoura, vivia na casa-grande.

Em 5 de novembro de 1838 se deu a maior fuga de escravos da história fluminense, e o foco principal estava na fazenda Maravilha. A fuga fora liderada pelo ferreiro Manuel Congo, que levou consigo negros das fazendas vizinhas inclusive da fazenda Freguesia, onde vivia Mariana. Esta juntou-se, então, aos fugitivos tomando a direção do grupo, no qual ficou conhecida como a rainha do quilombo, fazendo par com Manuel Congo, o rei.

Situaram-se nas matas de santa Catarina, nas fraldas da serra da Mantiqueira até serem atacados por tropas comandadas por um coronel da Guarda Nacional, que relatara no autos da época que a negra Mariana, de 30 anos estava a frente dos revoltosos, resistindo ao cerco da polícia sob os gritos de “Morrer Sim, entregar não!
No dia 12 de novembro, Mariana Crioula e Manuel Congo foram feitos prisioneiros, juntamente com outros líderes da revolta e o grupo se dispersou.

No julgamento, dezesseis escravos, sete mulheres e nove homens foram indiciados. Mariana, que havia demostrado valentia na mata, quando interrogada, procurou dissimular seu verdadeiro papel nos acontecimentos e alegou que havia sido induzida à fuga. Mesmo tendo sido delatada por outros réus como a rainha do Quilombo, Mariana fora absolvida. O único acusado de homicídio foi Manuel Congo, cuja sentença de morte por enforcamento foi executada no início do mês de setembro de 1839.

Fonte:

Dicionário Mulheres do brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Jorge Zahar Editor, 2000.

Jurema Batista

Jurema-batista-afroHomenageável por diversas razões, esta vereadora foi reeleita com 17 mil votos, triplicando sua votação anterior, como sinal de reconhecimento pelo grande trabalho que vem desenvolvendo. É desde muitos anos militante ativa do Movimento de Mulheres Negras.

Ruth de Souza

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Natural do Rio de Janeiro, a menina Ruth Pinto de Souza viveu até os 9 anos de idade com a família, numa fazenda, em Porto do Marinho, pequena cidade do interior de Minas Gerais. Com a morte do pai, um pequeno lavrador, ela, os três irmãos, e a mãe voltaram ao Rio, e foram morar em Copacabana, numa vila onde residiam as lavadeiras e seus maridos, a maioria deles jardineiros dos casarões do bairro.

As primeiras palavras, bem como o incentivo para estudar teatro veio de sua mãe, que a levou para as primeiras sessões de teatro e cinema.Depois de alguns anos no colégio interno – onde as freiras puniam a menina alegre que cantarolava músicas de Carnaval , a jovem atriz ingressou no Teatro Experimental do Negro -TEN, aos 17 anos, sob os cuidados do escritor, dramaturgo, ator, e ex senador Abdias Nascimento. “Ele criou o TEN, em 1945, com o Agnaldo Camargo, para mostrar que o negro poderia ser ator aqui no Brasil, numa época em que existia apenas o Grande Otelo”, conta.Com a peça O Imperador Jones, encenada pelo TEN, Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a pisar no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.O TEN abriu as portas do mercado de trabalho para os artistas negros. O Teatro dos Comediantes uniu-se ao grupo de Abdias Nascimento e, juntos, montaram Terra do Sem Fim, de Jorge Amado. Em seguida, a companhia cinematográfica Atlântida resolveu fazer a adaptação do texto para o cinema e Ruth de Souza, de novo, foi escalada para o elenco. “Jorge Amado me indicou para que fizesse no filme o mesmo papel que interpretei no teatro”,diz.Ruth de Souza, com cinco anos de carreira, conseguiu uma bolsa de estudos da Fundação Rocckefeller, fez as malas e viajou para os Estados Unidos para estudar teatro, . Lá, além de dramaturgia, aprendeu iluminação, sonoplastia, direção e cenografia. Assinou trabalhos como diretora em Pork and Bess e Shadows of a Gunman, peças em que trabalhou na época. “Também conheci a Broadway e seus atores.Fez também um mês de estágio na Howard University, em Washington, indo após para Nova York, onde ficou dois meses na Academia Nacional do teatro Americano. De volta ao Brasil, recomeçou uma sucessão de trabalhos no cinema, no teatro e na televisão. Entre as dezenas de filmes que fez estão Fronteiras do Inferno, Jubiabá, Assalto ao Trem Pagador, Boca de Ouro. Nos palcos, trabalhou em vários espetáculos, como Todos os Filhos de Deus Têm Asas, Vestido de Noiva, Quarto de Despejo, Réquiem para uma Negra, Zumbi e, mais recentemente, em Orfeu da Conceição, com direção de Haroldo Costa.Estreou na TV em 1952, na TV Tupi, com o teleteatro O filho Pródigo. Porém, o sucesso na televisão começou em 1965, com A cabana do Pai Tomás, na extinta TV Excelsior. Três anos mais tarde, ao ingressar na TV Globo, Ruth de Souza atuou em novelas como Passos dos Ventos, Verão Vermelho, A Deusa Vencida, O Bem Amado, Ossos do Barão, O Rebu, O Grito, Corpo a Corpo, Mandala, entre outras, além de seriados e mini- séries.A Cabana do Pai Tomás foi marcante na história da televisão por um motivo polêmico. Sérgio Cardoso, o ator principal, recebeu muitas críticas ao fazer o personagem central pintado com tinta preta. “O TEN já havia acabado com o ‘hábito’ dos grupos de teatro de se utilizarem desse tipo de pintura, grotesca e caricatural. Em 8 de abril de 1988, recebeu, em Brasília, a comenda do Grau de Oficial da Ordem do Rio Branco da República Federativa do Brasil, por sua contribuição às artes Cênicas brasileiras. Em 1999, recebeu o Prêmio Ministério da Cultura.

 Fonte:

Dicionário Mulheres do Brasil – De 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Jorge Zahar Editor, 2000.

Leci Brandão

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 Nasceu , em 12 de setembro de 1944, em Madureira, porém foi criada em Vila Isabel nas proximidades de redutos do samba carioca, como a Portela, Vila Isabel e Mangueira.

Com a morte do pai, Antonio Francisco da Silva, sua mãe, Lecy de Assumpção Brandão, teve que mudar para os fundos de uma escola primária no Rio de Janeiro para trabalhar como auxiliar de serviços Gerais. Leci, então teve que estudar a noite para poder conciliar os estudos com o trabalho.Trabalhava na Companhia Telefônica no Rio de Janeiro, em 1968 quando participou do Programa Flávio Cavalcanti, onde ganhou uma bolsa de estudos. Influenciada por Jorge Bem e pelo rock norte-americano, começou a atuar como cantora e compositora, e em 1968 ganhou o primeiro prêmio do programa A Grande Chance, da TV Tupi. Em 1972 entrou para a ala dos compositores da Mangueira, sendo a primeira mulher a conseguir esse feito. Participou de festivais de MPB e samba, e lançou o primeiro disco em 1974, um compacto com músicas suas. Em 1975 veio o primeiro LP, “Antes que Eu Volte a Ser Nada”, seguido por outros três ainda nos anos 70. No início da década de 80 brigou com a gravadora Polygram e passou alguns anos sem gravar, época em que acentuou sua atuação política, ligada ao sindicalismo e aos direitos humanos. Também foi o período em que desenvolveu sua carreira no exterior, apresentando-se no Japão, Dinamarca, Angola, Estados Unidos. Trabalhou com o grupo Fundo de Quintal, voltando a gravar em 1985. Em 1990 seu disco “Cidadã Brasileira” ganhou dois prêmios Sharp. Atua como comentarista dos desfiles do carnaval carioca e lançou, em 1999, o CD “Auto-Estima”. Entre os maiores sucessos gravados por Leci estão “Isso É Fundo de Quintal”, “Só Quero Te Namorar”, “Café com Pão”, “Papai Vadiou” “Olodum Força Divina” e “Deixa pra Lá”.

Elisa Lucinda

Nascida em dois de fevereiro, em Vitória do Espírito Santo, jornalista, professora, poeta e atriz. Reconhecida por seus espetáculos, recitais e workshops apresentados no Brasil e exterior; por seus trabalhos na área de recursos humanos junto a diversas empresas e instituições como Petrobrás, Banco Real e por seus trabalhos na televisão; onde recentemente viveu a cantora Pérola em “Mulheres Apaixonadas”, novela de Manoel Carlos no horário nobre na Rede Globo; e no cinema, como protagonista ao lado da amiga e atriz Zezé Polessa, no filme “Alegres comadres” lançado no Festival BR de Cinema 2003.

 Zezé Motta

 

zezeGrande atriz e cantora, deu vida à Xica da Silva, um dos personagens mais  representativos da história da população negra do Brasil.

 

Conceição Evaristo

conceiçãoNasceu numa favela da zona sul de Belo Horizonte. Teve que conciliar os estudos com o trabalho como empregada doméstica, até concluir o curso Normal, em 1971, já aos 25 anos. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde passou num concurso público para o magistério e estudou Letras na UFRJ.2 3

Na década de 1980, entrou em contato com o Grupo Quilombhoje. Estreou na literatura em 1990, com obras publicadas na série Cadernos Negros, publicada pela organização.É Mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.Suas obras, em especial o romance Ponciá Vicêncio, de 2003, abordam temas como a discriminação racial, de gênero e de classe. A obra foi traduzida para o idioma inglês e publicada nos Estados Unidos em 2007.4 5 Atualmente leciona na UFMG como professora visitante.

 Ellen Oléria

link-irado-71ab0db222adeebbd62704b08891eb18 Ellen nasceu em Brasília e foi criada em Taguatinga.4 Inicialmente interessada mais em instrumentos,3 começou cantando em coros de igreja, por influência dos pais.4 Iniciou a carreira de cantora aos 16 anos. Ellen Oléria é atriz formada pela UnB.4 Atua desde o ano 2000 no circuito cultural como cantora, compositora e instrumentista autodidata. Ganhou inúmeras edições do Festival Universitário Finca (Festival Interno de Música Candanga) da UnB,4 sendo a maior vencedora da história do Festival de Música Tom Jobim do SESC – DF, multipremiada no Festival de Música dos Correios.

Com um repertório que atinge grande diversidade de público, Ellen Oléria abre shows de artistas de vários segmentos, com aprovação da crítica midiática e do público desde o jazz ao samba, do samba ao pop, do pop ao hip hop e do hip hop às manifestações do regionalismo brasileiro como o congado, os afoxés e o carimbó. Em 2006 abre os shows de Lenine e do camaronês Richard Bona. Em 2007 participa da gravação do DVD comemorativo de 25 anos de carreira de GOG, grande referência do hip hop nacional, Ellen Oléria dividiu o palco com artistas como Lenine, Maria Rita e Paulo Diniz. Em agosto do mesmo ano, Ellen Oléria abre os shows de Geraldo Azevedo, Paulinho Moska e Monobloco. O início de 2008 é marcado pela abertura do show de Chico César. É aplaudida de pé pelo público que a assistiu ao lado do amigo e guitarrista Rodrigo Bezerra no Femusic em Maringá. Em seguida, Oléria abre o show de Guilherme Arantes, e recebe ao lado de GOG no Canecão (RJ) inúmeros prêmios Hutúz com o CD Aviso às Gerações, que marca o encontro da brasiliense com o rapper GOG, parceria que, em 2009, a leva para o Fórum Social Mundial (PA), onde canta ao lado do grupo argentino Actitud María Marta. Ainda em 2009, Ellen Oléria abre o show de Ney MatogrossoMargareth MenezesMilton Nascimento e Sandra de Sá. Realiza também um show em Salvador e outro em São Paulo. Neste mesmo ano, lança o disco independente Peça, produzido pelo parceiro e guitarrista Rodrigo Bezerra. Em 2010, Ellen Oléria abriu o show de Leci Brandão na Marcha Mundial de Mulheres em São Paulo e dividiu o palco com Hamilton de Holanda, Yamandú Costa,Diogo NogueiraMóveis Coloniais de Acaju e no aniversário de 50 anos de Brasília Ellen Oléria recebeu em seu palco Sandra de Sá. Também em 2010 integrando a banda Soatá a cantora participa da gravação do primeiro disco da banda que mistura ritmos amazônicos com rock’n roll. Em 2011 a cantora grava seu DVD com a banda Pretutu, Ellen Oléria e Pret.utu – Ao Vivo no Garagem, com as participações de Hamilton de Holanda e o rapper Emicida. No ano de 2012 além de gravar um documentário pelos interiores do Estado do Pará com a banda Soatá e mestres do carimbó a cantora ganha notória visibilidade ao ganhar o título de a voz do Brasil no reality show The Voice Brasil exibido pela TV Globo.1 Em 2013, Ellen Oléria grava seu 4º disco, pela Gravadora Universal Music do Brasil com participação de Carlinhos Brown. Atualmente a cantora apresenta seu novo trabalho pelo país.

Josefina Serra dos Santos – Dra. Jo

joNasceu no município de Cajapió , Povoado Manoel Bravo, no Estado do Maranhão . Aos oito anos de idade, foi trabalhar como empregada doméstica no Estado do Rio de Janeiro onde migrou com a família para o Distrito Federal.Foi a Primeira secretária da Promoção da Igualdade Racial do Distrito Federal.

Nelma Oliveira Soares

 nelma.2 Nelma Oliveira Soares foi a fundadora da ACMUN. Após 35 anos de profissão, a enfermeira Nelma passou a dedicar-se à vida comunitária na Vila Maria Conceição, na capital gaúcha. Desde então, a ACMUN segue sua trajetória firmada nos valores da ancestralidade. Desenvolve ações de promoção da comunidade negra, procurando garantir os direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais da população afro-brasileira. 

Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva.

PETROLINIA

Professora Emérita da Universidade Federal de São Carlos. Em 21 de março de 2011 foi admitida, pela Presidenta da República Dilma Rousseff, na Ordem Nacional do Mérito, no Grau de Cavaleiro, em reconhecimento de sua contribuição à educação no Brasil. Em junho 2010 foi indicada como Somghoy Wanadu-Wayoo, ou seja, conselheira integrante do Conselho do Amiru Shonghoy Hassimi O. Maiga, chefe do Povo Songhoy, no Mali (continente africano). É Professora Titular em Ensino-Aprendizagem Relações Étnico-Raciais junto ao Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas do Centro de Educação e Ciências Humanas-UFSCar, pesquisadora junto ao Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFSCar. Integra o International Research Group on Epystemology of African Roots and Education. Conselheira do World Education Research Association (WERA) representando a Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) (ABPN) e a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED). É Conselheira da Fundação Cultural Palmares, nos termos da Portaria nº 141, de 28/12/2011. Foi professora visitante junto na University of South Africa (1996), na Universidad Autonoma del Estado de Morelo, Cuernavaca, México (2003) e na Bolivar House da Stanford University, USA (2008). Por indicação do Movimento Negro foi conselheira da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE), mandato 2002-2006. Nessa condição foi relatora do Parecer CNE/CP 3/2004 que estabelece as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana e participou da relatoria do Parecer CNE/CP 3/2004 relativo às Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Pedagogia. De 2007 a 2011 foi coordenadora do Grupo Gestor do Programa de Ações Afirmativas da UFSCar. Em 2011, recebeu homenagem da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), das mãos da Ministra Luiza Helena Bairros, o prêmio Educação para a Igualdade, por ser a primeira mulher negra a ter assento no Conselho Nacional de Educação, por relevantes serviços prestados ao País e pela valiosa contribuição para a educação brasileira no combate ao racismo; da Prefeitura Municipal de São Carlos,/SP, por seu compromisso em promover e desenvolver ações por uma educação de alta qualidade e pela luta por uma convivência tolerante, harmoniosa e sem preconceitos em nossa sociedade; da Coordenadoria de Assuntos da População Negra da Prefeitura Municipal de São Paulo, o Prêmio Luiza Mahin, em reconhecimento por sua atuação em prol das mulheres negras.

Mãe Stella de Oxóssi 

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A escolha de Mãe Stella de Oxóssi como membro da Academia de Letras da Bahia legitima a importância da literatura baseada nos saberes tradicionais, produzidos pelos negros e negras deste País. As raízes, tradições, crenças dos afro brasileiros recebem, mais um reconhecimento, no momento em que Mãe Stella é escolhida para representá-los. A atitude pioneira de eleger uma mulher, negra, yalorixá para a Academia, reflete a resistência dos negros no campo das letras, ao ponto que Mãe Stella herda o espaço um dia ocupado pelo saudoso professor e historiador Ubiratan Castro, que entre 2003 e 2007, emprestou à Fundação Cultural Palmares sua sabedoria para a promoção da arte e da cultura afro brasileira.

Débora Maria Silva

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 É uma das Fundadoras  do movimento Mães de maio, 50, perdeu seu filho na véspera do dia das mães, em 5 de maio de 2011. Assassinado com 18 tiros na avenida Presidente Wilson, na Baixada Santista, Fábio Fonseca estava no carro com sua filha de 4 anos e sua esposa, Aline dos Santos, 30, grávida de 5 meses. Apenas sua filha sobreviveu.

Encerro este post homenageando todas as mães, que dia a dia lutam por direitos, respeito e dignidade para suas famílias, tradicionais e não tradicionais. Neste 08 de março que todas as mulheres comecem de fato á serem RESPEITADAS!

Leila Negalaize L.

PS: Faltam algumas que terei o imenso prazer de colocá-las aqui se me encaminharem. 

 

FONTES: 

http://www.criola.org.br/

http://www.palmares.gov.br/

https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/historia_africa/conversations/topics/991

A dúvida de Lupita: a mulher com “pele de cadeia” que ergueu a estátua de ouro

Por Fernanda Bassani¹

lupitaLupita Nyong’o acaba de ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Uma gota reverbera diferente no mar do entretenimento mundial. Lupita é queniana e “muito negra”. Sua presença no red carpet tingiu de um negro lustroso e selvagem, um cenário acostumado aos opacos tons nude dos figurinos – que só são considerados nudes porque as peles que os recebem são claras – e aos coloridos azuis e verdes dos olhos das estrelas de Hollywood. Lupita não é colorida, é monocromática. De um negro tão intenso que foi considerado inadequado, a ponto de revistas de moda lançarem mão de recursos tecnólogicos para tentar suavizá-lo . Considerada bela pelos comentaristas – que se apressam em incluir o adjetivo “exótica” ainda na mesma frase – o negro de Lupita transgride os padrões dominantes de Hollywod e, assim, obriga a platéia mundial ao convívio com o diferente. Seu diferencial, no entanto, não está em ser negra – há milhares de atrizes negras no mundo. A ruptura está no lugar. Apesar de ser “excessivamente negra”, Lupita fez a travessia e estabeleceu assento no lado dos vencedores. Ainda é uma coadjuvante, mas é a melhor delas. Assim como Whoppy Goldberg e Halle Berry, entre outras poucas atrizes negras reconhecidas, ergueu cintilante o símbolo do sucesso no mundo das artes. Mostrou-se, portanto, “ A melhor” de uma industria que fascina os olhos de milhões de pessoas, ditando padrões de beleza, poder, certo, errado, bondade, maldade, etc. Valores que entre uma pipoca e outra, invadem e constituem a subjetividade da população mundial. Por todo o poder que o mundo do entretenimento americano exerce é provável que essa vitória ajude a aproximar o negro a conceitos de beleza e talento, e, quiçá, avizinhá-lo a objetos de respeito e admiração. Em frente à tela do computador, vendo as reverências que a grande mídia fará para a atriz “muito negra”, o hominnus-conectadus da contemporaneidade poderá ter sua retina enegrecida, sem nem perceber, como, aliás, sempre funcionaram os grandes dispositivos capitalistas de produção de sentidos: potencializam alguns símbolos com aureolas de prazer/status e os diluem no cotidiano, nos momentos de lazer do povo – filmes, novelas, esportes – quando as defesas baixam e só o que se quer é um pouco de glamour para esquecer o sofrimento diário. Vitória negra que vem em boa hora. Sobretudo no Brasil, onde nos últimos tempos o negro tem sido cada vez mais midiatizado como exemplo de violência, vadiagem, animalidade, perigosidade, enfim, adjetivos que circundam o mundo da miséria humana e social, e que de acordo com os meios de comunicação de massa e com os “moralistas dos sofás” tornam-se uma causa em si. Na escala subjetiva do nosso país, quanto mais escuro, mais violento…mistérios da natureza, em uma sociedade democrática de um povo extremamente cordial e receptivo, não é mesmo? Para mim que trabalho no campo da segurança pública, essa vitória negra nas telas é vista como um alento. Também os trabalhadores da segurança pública utilizam as telas em seus momentos de descanso. Em tempos modernos, tem usado-as também como recursos de trabalho: o videomonitoramento de áreas estratégicas das grandes cidades disseminam-se, dando forma aquilo que Deleuze (1992) nomeou como “sociedades de controle”. Essas seriam sociedades constituídas por uma mutação recente do capitalismo, que tem no marketing e nas conexões globalizadas aquilo que faz o mercado girar. Nessa “modernidade liquida” (Bauman, 2001), em que os pilares sólidos das instituições se desfazem, é muito mais pelo monitoramento dos fluxos – intensos e hiper-conectados – do que pela disciplina dos corpos que se faz segurança pública. Modernizam-se as ferramentas de trabalho, mas não o olhar. Este permanece com os valores de sociedades antigas, em que o negro era vista como o principal suspeito, o bandido provável. Digo isso, não com base em teorias esquerdistas inconformadas, mas pelas experiências práticas de convívio com equipes de segurança, que são em última instância, formadas por homens que efetivam a escala de valores da sociedade, incorporada nos mecanismos de governo do Estado. A vitória de Lupita nas telas me fez relembrar uma experiência que tive a um tempo atrás em uma estação de vídeomonitoramento da Policia Militar de uma cidade do centro do país. O hiper-negro positivado de Lupita, relembrou o negro negativado e tatuado como filtro no olhar do policial que acompanhava as telas de controle. Na ocasião, um policial me acompanhava, dissertando sobre a tecnologia moderna que parecia romper com a burocracia estatal e as ausências policiais nos momentos em que o cidadão mais precisava. Entusiasmada, questionava sobre os “protocolos integrados”, “busca ativa”, e outros termos desconhecidos até então. Envaidecido com meu encantamento, o policial resolveu me mostrar uma situação de crime, ocorrida na noite anterior. Tratava-se de um furto. O policial de plantão assistia a cena pela tela, e pelos movimentos, pode prever o furto – que de fato ocorreu – mas teve tempo hábil para enviar uma viatura ao local. Assim efetivou-se a prisão do criminoso e a restituição da bolsa a vitima. Escutando os relatos, minhas expressões se animavam, estimulando meu gentil cicerone a estender a conversa. Foi então que começou a falar em “expertise policial” SIC que é, segundo ele, a habilidade que o profissional de segurança pública tem em reconhecer suspeitos. Disse que no setor havia mais de 2.000 fotos de criminosos e que os policiais ficavam diariamente repassando-as, fato que os levava a gravar no “sub-consciente” SIC estes rostos. Isso ajudava nas abordagens, pois de dentro da sala de videomonitoramento o policial poderia sugerir ao colega na rua que abordasse um suspeito. E foi então que chegamos no momento mágico, aquele que se Steve McQueen, o diretor de “12 anos de Escravidão” estivesse comigo, certamente teríamos aí uma grande promessa de roteiro. A fala foi: “E também doutora tem um elemento que nos faz reconhecer prováveis criminosos que é a pigmentação da pele” SIC. Eu arregalei os olhos, mas procurei me conter. Fui tão eficiente que ele seguiu a fala, com seu raciocínio fantástico. “É que a maior parte deles vem da cadeia, já cumpriu pena e na prisão eles tomam banho de sol sempre no mesmo horário. Todo dia, mesma quantidade de sol. Isso faz com que eles acabem ficando todos com a mesma pigmentação na pele. Que é a cor de cadeia” SIC. Confesso que fiquei impressionada com o potencial filosófico e político da fala do policial, homem simples e efetivamente dedicado em proteger a sociedade. Havia até um que de poético nessa fala, uma profecia social que se realizava: se você tem “pele de cadeia” é na cadeia que você deve estar. E o policial ajudando no desfecho correto, no único possível, de um roteiro urbano moderno: a proteção do bem (“cidadãos de bem”, representados pelos nudes de Hollywood) pela contenção do mal, que tem uma pigmentação própria, que o denuncia. Os diversos tons de negro. Foi então que pensei, mas e se, por uma ironia da natureza, alguém tivesse uma pigmentação de pele muito parecida com a de “um bandido de cadeia”, uma pele escura, tostada, cinza, meio “suja”, mas nem assim, tivesse cometido delitos, como fica? Ora bolas, pergunta tola, iria para o seu reino do mesmo jeito, pensei eu. Afinal este é o seu lugar. Foi assim com o protagonista do filme “12 anos de Escravidão”, negro livre que foi seqüestrado e restituído aos campos de escravidão do século XIX e assim poderá ser em 2014. É por tudo isso que ao subir os degraus do Teatro Kodak em Los Angeles, Lupita instaura uma dúvida imponente. Mostra nas “telas do vídeo-monitoramento mundial” uma pessoa com “pele de cadeia” segurando uma estatua de ouro. O ouro não foi roubado. Como ela conseguiu transgredir o cenário sem usar de violência? Ao longo dos anos, que efeitos essa e muitas outras transgressões negras pelo talento produzirão sobre a subjetividade daqueles que assistem ao espetáculo? E aqueles que devem garantir que o espetáculo aconteça com segurança, serão capazes de incorporar essas mudanças de posição das cores, desconstruindo antigos conceitos de suspeição? Viva a dúvida de Lupita!

Referências Bibliográficas Bauman, Zygmunt. MODERNIDADE LÍQUIDA. Rio de Janeiro, Ed. Zahar, 2001. Deleuze, Giles. POST-SCRIPTUM SOBRE AS SOCIEDADES DE CONTROLE (in CONVERSAÇÕES). Rio de Janeiro: Ed 34, 1992.

¹- Fernanda Bassani é psicóloga do sistema penitenciário do RS, Mestre em Psicologia Social pela UFRGS ( febassani@hotmail.com)