Meu Olhar Político do discurso de renúncia Papal.

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Por Leila Lopes.

“Caros irmãos:

Convoquei-os para este consitório, não apenas para as três canonizações, mas também para comunicar a vocês uma decisão de grande importância para a vida da Igreja. Após ter repetidamente examinado minha consciência perante Deus, eu tive certeza de que minhas forças, devido à avançada idade, não são mais apropriadas para o adequado exercício do ministério de Pedro. Eu estou bem consciente de que esse ministério, devido à sua natureza essencialmente espiritual, deve ser levado não apenas com palavras e fatos, mas não menos com oração e sofrimento. Contudo, no mundo de hoje, sujeito a mudanças tão rápidas e abalado por questões de profunda relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e proclamar o Evangelho, é necessário tanto força da mente como do corpo, o que, nos últimos meses, se deteriorou em mim numa extensão em que eu tenho de reconhecer minha incapacidade de adequadamente cumprir o ministério a mim confiado.

(Pelo que entendi, acontece que não acompanha as mudanças necessárias neste mundo de globalização e de tentativas de aberturas políticas e de direitos individuais e coletivos, como por exemplo o casamento entre iguais, contraceptivos, etc… Isto também significa que provavelmente o CONCLAVE irá escolher um Papa mais jovem, isto não quer dizer que será liberal, porém existe uma chance de estarem pensando em um papado que não seja da OPUS DEI, mas esta tem uma força política muito grande, pois defende as oligarquias mundiais.)

Por essa razão, e bem consciente da seriedade desse ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério como Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, confiado a mim pelos cardeais em 19 de abril de 2005, a partir de 28 de fevereiro de 2013, às 20h, a Sé de Roma, a Sé de São Pedro, vai estar vaga e um conclave para eleger o novo Sumo Pontífice terá de ser convocado por quem tem competência para isso.

Caros irmãos, agradeço sinceramente por todo o amor e trabalho com que vocês me apoiaram em meu ministério, e peço perdão por todos os meus defeitos.

(O que seria este pedido de perdão? Qual seriam estes os defeitos? Seriam seu suposto caso e descaso com a pedofilia e outras atrocidades cometidas pela Igreja católica, principalmente no seu bispado no passado e agora como Papa, se recusando a uma abertura nas leis católicas? )

E agora, vamos confiar a Sagrada Igreja aos cuidados de nosso Supremo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo, e implorar a sua santa mãe Maria, para que ajude os cardeiais com sua solicitude maternal, para eleger um novo Sumo Pontífice.

(Implorar a Santa Mãe Maria que ajude os cardeais…a política interna do Vaticano esta em guerra e esta será uma das mais acirradas disputas para a escolha Papal.)

Em relação a mim, desejo também devotamente servir a Santa Igreja de Deus no futuro, através de uma vida dedicada à oração.

(A vida dedicada a oração, isto é, provavelmente não poderá ficar comunicável com qualquer pessoa, tipo também jornalistas e outras que queiram investigar melhor esta sua renúncia. Sim, o vaticano lançará uma biografia deste papa com sua versão, mas a verdadeira ficará incógnita na história mundial, se não tiver alguém sagaz para investigar a renúncia do Papa Bento XVI.)

Vaticano, 10 de fevereiro de 2013.

BENEDICTUS PP. XVI”

 

 

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Traduzir-me

Traduzir-me em palavras, imagens, focos de fotos. Fatos traduzidos em palavras que poderiam se perder nos ventos do pensamento tão meu e tão de tod@s.

Traduzir-me significa, traduza-me, obtusa no olhar sempre para frente, flechando o alvo, objetivo de mim. Percepções do dia a dia, andando pelas diversas capitais, cidades, mundos para além de mim.

Expressar sentimentos traduzidos em textos que talvez  nem sejam o que queira dizer amanhã, mas o que quis dizer hoje.

Mamillus de vênus, o descobrir-se, o sentir frio, o sentir calafrios, o traduzir do tesão, do prazer, da amamentação, da vida, do coração, da estética feminina, masculina…

Traduzir-me em uma matrix…

Traduza-me.

Leila L

Igualdade de direitos. Esse é o sentido da Organização das Lésbicas, Bissexuais e Trangêneras Negras,

Marcha LGBT 2011

Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo. O racismo estabelece a inferioridade social dos segmentos negros da população em geral e das mulheres negras em particular, operando ademais como fator de divisão na luta das mulheres pelos privilégios que se instituem para as mulheres brancas. Nessa perspectiva, a luta das mulheres negras contra a opressão de gênero e de raça vem desenhando novos contornos para a ação política feminista e anti-racista, enriquecendo tanto a discussão da questão racial, como a questão de gênero na sociedade brasileira.

(Carneiro, Sueli – Enegrecer o feminismo: A situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma nova perspectiva de gênero-Durban 2001).

Através deste novo olhar feminista e anti – Racista, citando Sueli Carneiro, é que nós lésbicas, bissexuais e transgêneros negras devemos nos aprofundar nos debates que dizem respeito à invisibilidade da Mulher Lésbica, se as lésbicas brancas sofrem de preconceito e da opressão da heteronormatividade, as muitas não sofreram pela sua cor da pele e das desigualdades sociais.

Nós lésbicas Negras sofremos direta e indiretamente nos movimentos seja o feminista e negro pela nossa orientação sexual; enquanto as mulheres negras avançam para o enegrecimento do movimento feminista de uma forma mais ampla, as lésbicas negras participam fraccionalmente das lutas da negritude, cria-se um biombo ou a lésbicas, bissexual ou transgêneras negra não assume sua identidade sexual, e esta é vista e aceita enquanto uma liderança de maior relevância e as assumidas têm de se colocar firmes e fortes no dia a dia do processo da luta Anti-racismo, pelo preconceito encontrado também no interior do movimento de combate ao racismo; Ora, se o Movimento Negro que luta contra a discriminação racial e se identifica também com a luta de classe e por reparações porém não consegue debater abertamente a questão da homossexualidade como os demais movimentos sociais, então como são tratadas nossas especificidades enquanto lésbicas, bissexuais e trangêneras negras?

Uma das causas identificadas neste momento é a falta de uma articulação interna das LBT negras.

1[1]. Nesse contexto, quais seriam os novos conteúdos que as mulheres negras poderiam aportar à cena política para além do” toque de cor “nas propostas de gênero?”

Não quero aqui colocar que o movimento feminista não está aberto a nossa causa, até porque a luta das feministas negras vem abrindo um leque de conquistas. E o movimento lésbico brasileiro até que ponto debate seriamente a questão do racismo, até que ponto nós LBT negras não estamos servindo de trampolim para a classe dominante? Se formos contar o numero de LBT negras, lideranças do movimento LGT, não passamos de uma dúzia assumidas, visibilizadas e empoderadas nos espaços de decisões do movimento, perante os movimentos sociais e ainda “muitas de poucas de nós”, não conseguem trabalhar articuladamente enquanto LBT negras para avançar nos debates internos do movimento lésbico e feminista, tão pouco para o movimento negro, quiçá nos movimentos sociais. Temos muito que conquistar no âmbito do movimento negro, pois sofremos a discriminação étnico-racial, mas para que esta luta torne-se viável de debates teóricos e práticos necessitamos livrarmo-nos dos egos constituídos pela nossa história no movimento de lésbicas e partirmos para uma unificação onde momentos de articulação fazem-se necessários para conquistarmos respeito e principalmente reinvidicarmos a necessidade de algo maior que uma oficina no canto das conferências, seminários…Mas, sim nossas especificidades serem apontadas como bandeiras de luta e conquistarmos o direito de sermos Lésbicas e Bissexuais sem medo de críticas e retaliações veladas no interior do movimento negro.

 A organização desta rede se constrói da forma coletiva, contemplado diferentes perfis de LBT e as particularidades de cada região, apontando para uma organização heterogênea, mas que mantenha sua autonomia enquanto Lésbicas Bissexuais e transexuais feministas.

Existem várias ações positivas sendo desenvolvidas, oriundas de diferentes setores e lideranças sociais. As Lésbicas, Bissexuais e Transexuais afrodescendentes, mesmo inclusas nestes processos, muitas vezes atuam como coadjuvantes. Acreditamos que enquanto Redes LBT organizadas temos a possibilidade de construir um plano de metas para o Movimento LBT de negras com uma plataforma baseada na igualdade de direitos, no campo da reforma política e que reflitam na proposição de políticas públicas alinhadas ao Pacto Nacional de Combate a Extrema Pobreza; metas que nos possibilitem o papel norteadoras desta política transversalizada, anti sexista e racista, que também nos permita tratar de nossas questões e contribuir neste novo panorama social no contexto étnico/racial nos movimentos LGBT, Feministas e sociais.

Ser negro sem ser somente negro, ser mulher sem ser somente mulher, ser mulher negra sem ser somente mulher negra. Alcançar a igualdade de direitos é converter-se em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero. Esse é o sentido dessa luta.

Leila Lopes

Setembro 2008

Lei 10.639 – Educar para a Igualdade

Caminho de Mombassa ( Quênia)

Segundo o psiquiatra Frantz Fanon, O negro nunca foi tão negro quando a partir do momento em que foi dominado pelos brancos”(Fanon, 1983:212).

No Congresso Mundial de Combate ao Racismo e Intolerâncias Correlatas, realizado em 2001 em Durban na África do Sul, foi pensado a problemática das populações africanas e da diáspora em relação à educação, sendo um dos eixos preocupantes, o ensino e pesquisas universitárias. Nas conclusões temos nos percursos da reprodução universitária, tanto na transmissão de conhecimento como na pesquisa, maior sentido ao suporte do desenvolvimento desigual entre as populações de um mesmo país e entre países de uma mesma região ou de regiões distintas do que à produção de soluções das desigualdades sócio-econômicas. Em muitas áreas, a universalização acadêmica conspira ou desconhece as culturas locais, provocando ruptura de identidades culturais e desrespeito ou desconsideração aos conhecimentos das populações. (CUNHA JUNIOR, Henrique.)

Esta observação não pôde passar despercebida também no Brasil, já que somos brasileiros e descendentes de encontros e desencontros de diversos grupos étnicos ameríndios, europeus e africanos; temos uma dupla responsabilidade já que, a história da África e do Brasil são muito próximas. os africanos não foram criados por autogênese nos navios negreiros e nem se limitam em África à simplista e difundida divisão de bantos ou sudaneses. Devemos conhecer a África para, não apenas dar notícias aos alunos, mas internalizá-la neles”.1

No Brasil as formulações produzidas por intelectuais negros contemporâneos da Frente Negra Brasileira, surgida na década de 1930, a educação sempre ocupou destaque na agenda do movimento negro brasileiro.

Sempre foram tímidas as tentativas de leis na área da educação que possibilitasse a promoção da população brasileira, em 1941, foi assinada uma lei que proibia formalmente a veiculação de preconceito de raça ou cor por meio de livro didático. Essa foi uma das primeiras manifestações do estado brasileiro ao que diz respeito ao desempenho do sistema de ensino na reprodução do racismo, do preconceito e da discriminação raciais.

Porém, isto não impediu que durante anos autoridades e a academia da área de educação refutassem qualquer debate sobre este tema, o de contemplar a diversidade racial brasileira.

Com o passar dos anos foram produzidas pela organização do movimento negro brasileiro e algumas tímidas produções na área acadêmica sobre o conhecimento da diversidade humana e, mesmo assim, ficaram excluídas do currículo escolar; assim pode-se concluir como,inaceitável que o ensino de história, literatura, geografia, artes, entre outras, não abarque a participação de diferentes grupos formadores da nacionalidade brasileira, com destaque, o contingente negro. ( publicação CEERT 2004/2005,p.11)

Caminhando ao encontro destas demandas, foi aprovada a lei 10.639, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (lei 0.394/96). Em seu artigo 26 ao instituir a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras em todas as instituições de educação básica. Essa lei foi promulgada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em janeiro de 2003 e regulamentada pelo Conselho Nacional de Educação em junho de 2004.

Foi necessário que o Estado brasileiro adotasse a lei 10.639/2003, para que os gestores da educação atentassem para a relevância do estudo da África e da cultura afro – brasileira, num sistema de ensino cuja metade da clientela é composta por descendentes africanos. (Publicação CEERT 2004/2005, p.11)

Agora não podemos esquecer o imenso esforço dos educadores negros e brancos para empreenderem a valorização da diversidade e da promoção da igualdade racial em sala de aula, que antes mesmo de haverem produções teóricas, mas observando a insistência do movimento negro a estas produções, acabaram sensibilizando-os e engajando, milhares de professores pelo país, onde já se ocupavam no enfrentamento do racismo e da discriminação racial, antes mesmo de qualquer aprovação da lei.

Foi através deste conjunto de educadores que foi possível transformar o espaço escolar em instrumento de valorização da diversidade, da inclusão e da promoção da igualdade – nomeadamente igualdade racial. (Publicação CEERT 2004/2005, p.11)

Negação da diversidade racial brasileira na formação da equipe da escola

Ao observarmos o ambiente escolar podemos notar a escassez de profissionais negros, sejam palestrantes, médicos, psicólogos, escritores, etc. O que observamos nos dá margem a concluir que um número demasiado de pessoas brancas pode gerar estas conseqüências de processos seletivos permeados por preconceito e discriminação de profissionais negros. (Cavalleiro, Eliane.p.122)

Ao conviverem e notarem a falta destas referências de profissionais negros, pode de alguma forma interiorizar-se nos alunos que acabam por acharem “natural” a inferioridade intelectual da raça negra; estas observações acabam por favorecer este circulo vicioso da exclusão social do negro.

O sistema de cotas universitárias é uma das ações afirmativas que o movimento negro encontrou para pedir reparações há anos de racismo acadêmico e institucional, gerando, buscando assim, fomentar aos negros e negras uma possibilidade de igualdade em relação à formação acadêmica e produção teóricas que desmitifiquem a superioridade eurocêntrica e a inferioridade de negras e negros.

Sendo assim, é importante a adoção das cotas nas universidades brasileiras, pois, buscam uma educação igualitária e reparativa aos anos de exploração e expropriação da população negra de exercer e, buscar a construção da sua identidade neste país.

Educar para a Igualdade

Escutamos muitas vezes dos opositores das ações afirmativas argumentos que, o movimento negro não deve se ocupar do ensino superior e, sim ficar atento para a educação básica.

Estas afirmativas possuem uma inverdade e um falso dilema.Falso dilema é que uma reivindicação não exclui outra, ao contrário, se complementam, inclusive porque a educação básica não será capaz de dialogar positivamente com a diversidade humana enquanto o ensino superior – que prepara os professores – tiver uma orientação e uma composição enraizadamente euro e etnocêntricas. (Publicação CEERT 2004/2005, p.13);pode – se atestar esta inverdade dos opositores das ações afirmativas ao constatar que há décadas a questão da educação, ou mais , propriamente os serviços por ela prestados ao racismo e a discriminação racial, vem sendo priorizada pelos ativistas e pensadores negros brasileiros.(Publicação CEERT 2004/2005, p.13)

Através destas observações e das reivindicações do movimento negro é que o Ministério da Educação através do projeto de reforma universitária, vem contemplar as ações afirmativas, para que aja a execução de uma reforma na educação básica, onde o passo inicial deverá ser a extinção da herança etnocêntrica da pedagogia brasileira.

Muitas escolas e docentes atentos a esta reforma, já buscam implementar através de experiências de promoção da igualdade racial/étnica no ambiente escolar; experiências estas bem sucedidas tanto em sala de aula como no cotidiano das crianças, de jovens e de adultos.

Para reverter à situação de sofrimento a que parcela significativa de alunos negros vem sendo sistematicamente submetida nas escolas, se faz necessária transformar velhas práticas em novas alternativas, que concorram para a inclusão positiva desses alunos no sistema de ensino, garantindo, assim, seu direito à educação pública e de qualidade. Essa transformação inicia-se com a possibilidade de todos os alunos reconhecerem e aceitarem o grupo racial negro no espaço escolar – e na sociedade. (Cavalleiro, Eliane, 123).

A escola não deve silenciar-se diante da questão racial; os profissionais da educação não devem omitir-se desta situação problema e questionarem, para que assim consigam identificar, reconhecer e combater o racismo no espaço escolar, promovendo o respeito mútuo, o respeito ao outro, o reconhecimento das diferenças, a possibilidade de falar sobre as diferenças sem medo e sem preconceito(Cavalleiro, Eliane. p.124), pois o abismo racial que persiste no país, com altos níveis de desigualdade social e de crianças negras que ajudam a elevar as taxas de evasão escolar no segundo grau, seja pela questão do genocídio urbano, causado principalmente pelo tráfico de drogas, seja pelos extermínios das milícias, seja pelo trabalho informal que não permitem que o jovem tenha tempo para se dedicar a seus estudos, seja o trabalho infantil, etc; enfim, estes reflexos também são visíveis no debate das ações afirmativas, dentre elas o sistema de cotas, que provoca um debate nacional sobre, racismo versus assistencialismo, sendo assim, é preciso incorporar o estudo da história antiga da áfrica nos currículos escolares.

Tal é a importância da produção de livros didáticos – pedagógicos que façam um debate sobre a problemática do racismo e também que ilustrem uma África e a cultura afro-brasileira, seja, pelo MEC ou pelo mercado editorial; estes necessitam também, de um olhar menos etnocentrista de seus editores, para que escritoras/es negras e negros possam também serem focos de admiração da juventude negra, mas para, além disto, que negros e brancos tenham os mesmos direitos e acessos à políticas públicas e educação de qualidade.

Leila R. Lopes

Especialista em História Antiga da África;

Jornalista

Assessora Especial Coordenadoria Para Assuntos da Igualdade Racial do Distrito Federal;

Webdesigner e produtora Cultural

1 Oliva, Anderson Ribeiro. A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática.En publicacion: Estudos Afro-Asiáticos, vol. 25 no. 3. CEAA, Centro de Estudos Afro-Asiáticos, UCAM, Universidade Candido Mendes, Rio de Janeiro, Brasil: Brasil. 2003 

Homofobia e Racismo – As intolerâncias invisibilizadas

As conquistas e as garantias do povo negro são obrigações de toda a sociedade brasileira. Estes direitos de fato, são direitos humanos, pois à comunidade negra foi negada historicamente até os mais elementares Direitos Humanos, como o direito a vida, alimentação, saúde, trabalho, educação; contudo, Direitos Humanos não se tornam realidade a partir de políticas públicas adotadas pelo Governo e da Organização e participação da sociedade.

No Brasil uma das principais tarefas da luta anti-racista é a desconstituição do “mito da democracia racial”, ideologia que tem como objetivo ocultar a segregação e a violência promovida pelo racismo da sociedade brasileira.
Com o avanço das lutas do movimento negro e do movimento de mulheres negras a negação frontal do racismo é paulatinamente substituída por solenes declarações que reconhecem os problemas, mas indagam o papel dos indivíduos, das instituições e do Estado na sua superação. A naturalização das desigualdades raciais é agora substituída pela naturalização do racismo, que isenta a sociedade de responsabilidade e termina por culpabilizar o próprio negro pelos privilégios raciais, materiais e simbólicos da elite branca masculina. A opressão sofrida pela mulher negra na atualidade é de natureza econômica, histórica e social.

Com a assinatura da lei Áurea, o negro é arrancado da sua terra que havia cultivado por mais de 300 anos e jogado sem nenhuma preparação para a periferia urbana sem as mínimas condições de sobrevivência com a farsa da abolição e da passagem da produção doméstica e agrícola para a mercantil industrial.

A inserção da mulher negra na força de trabalho sofre algumas alterações. Na vigência do sistema escravagista ela desempenhou juntamente com o homem negro, atividades econômicas fundamentais para a produção. Já no capitalismo com a utilização da tecnologia em larga escala a maior parcela da força de trabalho da mulher negra só encontra saída na função de doméstica porque só são necessárias á produção as mulheres “tecnicamente adestradas”. Desta forma, à medida que empurra o homem negro á marginalização, o modo – de – produção capitalista responsabiliza a mulher negra pela manutenção da família.

Com toda esta construção social a população negra não foge a regra da constituição de um Estado não laico, onde tradição e família são suas bases estruturantes , mesmo com a cultura da oralidade de preservação ancestral do povo negro. Esta base estrutural em um todo introduziu o preconceito no mais alto índice de exclusão racial, bem como também invisibilizou as questões das diversidades e das identidades na comunidade negra.

O segmento da livre orientação sexual tornou-se um tabu nas relações internas da comunidade negra, que como todas as raças têm sua diversidade sexual, mas pelo machismo construído também para a cultura do homem negro, denominado: garanhão, bom de cama e para as mulheres negras amas secas, domésticas ou sensuais da cor do pecado, fez com que o movimento negro na sua organicidade e na urgência da quebra do racismo institucionalizado na sociedade brasileira não admitisse a possibilidade do debate de suas diversidades internas, entre elas a questão da homossexualidade negra, ocultando assim nas suas reivindicações por ações afirmativas, bem como de políticas públicas, o direito dos homossexuais negros expressarem suas demandas enquanto triplamente discriminados nesta mesma luta contra o racismo e todas as formas de preconceitos; pois esta parcela da comunidade negra diariamente são submetidas e expostas à violência promovida pelo racismo, sexismo e homofobia das comunidades branca e negra.

Por esta ocultação do movimento negro nesta questão específica, fez com que no interior do mesmo a comunidade homossexual negra seja vista como debilitante, um ultraje á ordem social estabelecida e á imagem do homem negro que é tido como símbolo de masculinidade.

Com todos estes fatores de negação da diversidade sexual, muitos gueis e lésbicas, optaram em negar-ocultar sua orientação sexual pela centralidade imposta pelo movimento negro, que é a luta contra o racismo e assim tornaram-se lideranças muitas vezes coniventes com a homofobia internalizada e externalizada por muitos ativistas do movimento negro até hoje, passando assim a ser aceito enquanto lideranças valorosas, combativas nas lutas – sem dúvida nenhuma urgentes para os objetivos traçados pelo povo negro por uma sociedade sem racismo – e passiva enquanto as questões de sua própria identidade sexual, deixando a mercê toda uma parcela do segmento homossexual negro nas formulações de políticas públicas para a comunidade LGBT, dirigida em toda sua maioria por brancos de classe média, onde as (os) negras (os) homossexuais que destacam se neste movimento não possuem nenhuma identidade nítida de sua negritude, fazendo o discurso “chapa branca”, para aqueles que também os oprimem por terem sido educados para dar continuidade à sociedade eurocêntrica, sem notarem que estão sendo usados como massa de manobra para novos financiamentos, tornando-se assim o (a) negrinha (o) porta vozes de toda uma subjetividade malévola do uso perspicaz da necessidade da auto – estima que esta (e) lésbica – guei necessita por enfrentar diariamente o racismo e a homofobia e não encontrando em seu Ketu, aceita este papel deliberado pelas lideranças brancas do movimento LGBTT, não por que elas querem, mas por que necessitam nos dias de hoje para o discurso do recorte racial.

O mito da Igualdade racial e a ideologia do branqueamento, criado pelo liberalismo paternalista que a esquerda diz combater refletem-se nos mais diversos movimentos como, por exemplo, o de Mulheres e LGBTT, onde assumem a atitude “democrática” que nega a questão racial, diluído-a na luta de classes.
Podemos interpretar desta perspectiva, que sexismo, racismo e orientação sexual seriam variações de um mesmo tema mais geral que tem nas diferenças biológicas (reais ou imaginárias) o ponto de partida para o estabelecimento de ideologias da dominação.

O esquecimento da questão racial pode ser interpretado como um caso de racismo por omissão, que se origina de perspectivas eurocêntricas e neo colonialistas da realidade Latino Americana, portanto uma forma de eurocentrismo que ao descartar, ou pelo menos subestimar as dimensões índia e negra na construção das Américas, comprometendo a realidade do feminismo e do movimento LGBTT Latino Americano.

Existem tanto feministas brancas e negras, bem como ativistas homossexuais brancos comprometidos com a questão racial, porém estes movimentos são movimentos de mulheres e homossexuais brancos! Isto porque no interior destes movimentos citados como exemplo, ainda existe o discurso estereotipado: as lésbicas e gueis negros são indóceis, agressivos, criadores de caso, difícil o diálogo com eles, etc. .

Na realidade a dificuldade do movimento negro e do movimento LGBTT é ambos reconhecerem as suas diversidades internas, no movimento negro a aceitação do debate direto e interno de aceitação e compreensão para com a homossexualidade negra e com o movimento LGBTT negro um aprofundado conhecimento da luta de combate ao racismo e as questões estruturantes que leva o todo do povo negro ser discriminado. O primeiro omite a existência LGBTT negra e o outro fala, define e classifica através de um sistema ideológico generalizado que reproduz o eurocentrismo cujos efeitos neocolonialistas são formas alienadas de uma teoria e de uma prática que se afirmam como libertárias.

Hoje, quando os homossexuais negros e negras buscam uma forma de se organizar enquanto cidadãs e cidadãos em busca de um debate no interior do movimento negro e de empoderamento no movimento LGBTT, ainda encontra inúmeras dificuldades de expressar para que surge, comentários de que enquanto negras e negros homossexuais estamos fragmentando ambos os movimentos e ignorando a luta do todo, por um lado a luta contra o racismo e pelo outro a luta contra a homofobia e lesbofobia. Ora, se os LGBTTS AFROS não se sentissem hostilizados, invisibilizados por ambos os movimentos não sentiriam a necessidade de organizarem-se, mas no decorrer das reivindicações por igualdade social, racial e de direitos pela livre orientação sexual, tanto ações afirmativas, tanto por políticas públicas para homossexuais negras e negros. A questão aqui colocada é complexa, pois não estamos tratando do racismo descarado e nem da homofobia e lesbofobia latente, tratamos aqui do racismo e da lesbofobia e homofobia invisíveis, tratamos aqui do sofrimento psicológico da negação das(dos) homossexuais negras e negras da sua condição humana e de identidade, já que não é encontrada guarida de atenção aos seus anseios no seu ketu.

Já no plano de políticas públicas do Governo Federal, o plano Brasil sem Homofobia, visa atender as demandas do movimento LGBTT em esferas transversalisadas dos ministérios e secretarias, porém o que vemos são apenas capacitações para o discurso homossexual de conveniências para uns poucos visibilizados em sua maioria de ONGS dirigidas pela elite branca onde os homossexuais negros e negras encontram resistência em desenvolver sua auto – afirmação não só no recorte étnico racial, mas também enquanto agentes de controle social das demandas provocadas por este programa inserindo nesta perspectiva um jeito novo de gerenciarem suas demandas específicas; pensando nisto os homossexuais negros e negras organizam-se em redes onde estão aprendendo a desenvolver o diálogo a visibilidade e empoderamento de suas lideranças lincados no debate interiorizado no movimento negro para o movimento LGBTT. A reflexão aqui lançada é: para se tornar uma liderança negra LGBTT ou não, deve abdicar de seu senso crítico as propostas elaboradas por um grupo de lideranças não negras em relação a políticas públicas LGBTTS afro?

É através da juventude e do seu enfrentamento as resistências arcaicas de lideranças negras e LGBTTs, busca-se inserir uma nova forma de pensar e atuar que a questão das cotas para universitários, o debate da redução da maioridade penal , da reformulação dos currículos escolares, do controle da saúde negra, das matrizes africanas, pela implementação da lei 10639-03, e da aprovação do estatuto da igualdade racial, também são lutas dos homossexuais negras e negros, pois os mesmos são triplamente atingidos por estes preconceitos enraizados nesta sociedade branca brasileira.

Quando ativistas do movimento LGBT negros e negros, discursam que existe um racismo institucionalizado no movimento LGBTT em seu todo, são questionados (as) se possuem provas estatísticas, o argumento é que se racismo é crime deve ser denunciado, pois bem, o que está sendo denunciado não tem números, não têm estatísticas, pois a denúncia é do campo subjetivo do “mito da igualdade racial” enraizado na sociedade eurocêntrica brasileira, tenta-se com estes questionamentos coagir o debate para diluir-se na luta de classe e não de raça e classe; por isto a importância destas redes organizadas de LGBTT negras e negros; porém, este segmento e debate deve ter sua inserção e aceitação também no movimento negro para aí sim, serem verdadeiramente compreendidos e defendidos enquanto atores do movimento negro em um todo na sua luta pela igualdade racial e todas as formas de preconceito.

Leila Lopes

RETORNO DE TRÓIA

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15 ago

Retorno a escrever, durante este tempo em que fiquei assim, assim hermética nas palavras, muitas coisas aconteceram, muitas coisas construí, mas algo me faltava…faltava escrever.

Escrever para mim, principalmente para mim.

Muitas viagens e alguns amores…dores, luares, crescimento…renascimento.

Agora não vou mais parar;descobri em todas as andanças que a melhor procura está em mim e assim retorno a escrever.

Quero agradecer ao amigo Marcos Linhares que me incentivou a tomar coragem e retornar a escrever. Agora vou poder expressar outra vez o que estava contido em mim e soltar minhas palavras em gráficos que talvez possam me, te, nos fazer viajar.

Leila L